Nova Perspectiva

10 de maio de 2016

A gente ficou pra trás

Te vi caminhando com ela dia desses moreno, vocês estavam de mãos dadas e riam de alguma coisa que eu não consegui descobrir bem o que era, não me viram passar enquanto eu voltava do mercado abarrotada de sacolas na mão. Também não fiz questão que me vissem. Parei um pouco mais pra frente e fiquei lá, quietinha, meio escondida num canto observando vocês até perde-los de vista. Cê parecia alegre, olhava pra ela apaixonado, de um jeito que nunca foi capaz de me olhar. Mas isso não doeu, pelo menos não daquela vez, eu juro! Acho que eu acabei entendendo que cada um tem um peso da vida do outro. Eu tive o meu, e tudo bem se eu não fui o seu maior amor, porque você, ao contrário do que eu tanto imaginava, também não foi o da meu.

Quando vocês sumiram do meu alcance, eu continuei mais um por tempo lá, parada, analisando aquilo tudo que tinha acabado de acontecer. Quando é que eu podia imaginar que uma cena daquelas me faria sorrir tão instintivamente? Pois é moreno, de repente a sua felicidade deixou de me atingir e começou a me fazer bem. Há uns meses, se alguém contasse que eu conseguiria ver vocês juntinhos sem derrabar uma lágrima sequer, eu não acreditaria. Pra mim isso era impossível. Mas o tempo vai passando e a vida vai mudando e aquelas nossas feridas que sangravam sem parar começam a cicatrizar, elas vão melhorando, melhorando, até que se tornam uma marquinha pequena, insignificante, adormecida no lado esquerdo do peito. A gente acabou se tornando uma. Talvez a única parte boa do fim seja essa, a que a gente consegue olhar o outro com carinho e sentir que finalmente tudo ficou pra trás.

Sei que ainda vamos nos encontrar outras vezes, talvez vocês ainda estejam juntos, talvez eu também esteja com outro alguém. Talvez estejamos sós, já não vai importar. Talvez você tenha escutado falarem de mim, talvez tenha se orgulhado do tanto que eu mudei. Talvez fique feliz em saber que me abri pra novos horizontes e perdi o medo de altura, pois é moreno, agora eu me jogo alto. Talvez eu também já tenha ouvido algumas novidades suas, talvez eu continue torcendo pra que você cresça cada vez mais nos caminhos que escolher seguir. Talvez em alguma dessas esquinas da vida a gente se olhe e sorria um pro outro, do mesmo que eu sorri sozinha quando te vi sorrir pra ela. Talvez a gente não fale nada, mas numa troca singela de aceno de cabeças tudo faça sentido: não era pra ser, mas isso não quer dizer que não tenhamos sido nada. Nós fomos, só não o suficiente pra ser pra sempre. E não tem nada de errado nisso.

*imagem via reprodução

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.