Nova Perspectiva

3 de abril de 2016

Sobre tempestades e recomeços


- É só uma fase chata. - Repetia na frente do espelho.
Uns dias chuvosos, uma dor na coluna, uma tosse de dois meses que não passa nunca. É uma fase.

Cinco espinhas na cara pra ficar cutucando o tempo inteiro e não deixar sarar. Um coração esmagado pelas decisões pendentes que a gente fica procrastinando. Uma vontade de correr e se esconder em qualquer lugar que não "aqui". Uma fase.

Me tranquei no quarto semana passada e jurei pra mim mesma que não ia mais sair de lá. Levou uns 15 minutos. É uma fase, sua boba. Uns dois vidros de xarope, uma música boa, uns kg de corretivo pra tapar as olheiras, uma gargalhada, e tá tudo bem até semana que vem.

Vamos, socialize um pouco. - a consciência exige. Não dá. Preguiça de me relacionar. Eu nem tenho assunto. Não sei o que responder. Será que se eu der uma risadinha disfarça e passa batido? Vou tentar. Ufa. Dessa vez até consegui ser convincente. Não tá escrito na minha testa que tô numa bad do caramba, né? Ótimo. É só uma fase.

Não tô depressiva, nem nada. Apesar dos sintomas de distimia, acho que tô só é com preguiça. É que não dá pra ser sempre sol, sabe? Às vezes a gente também é tempo fechado. É nuvem pesada. Às vezes eu chovo. Faço tempestade, porque nunca gostei de ser garoa. Se é pra molhar, que encharque. Às vezes eu choro. Faço escândalo sozinha, porque ninguém precisa se molhar nas nossas tempestades além de nós mesmos. Aqui dentro até troveja e eu já nem faço questão de abrir o guarda-chuva.

Porque, em regra, chuva sempre rega algo. E eu sei que deve estar germinando alguma coisa bem bonita por aqui também, pra florescer depois. Sei que pra receber algo novo em mãos, precisamos primeiro largar o que seguramos. E é esse intervalo de mãos vazias que tortura. Essa angústia libertadora de deixar tudo que se construiu pra começar a construir algo novo.

Como já dizia Caio Fernando Abreu: "Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde." E eu tenho tentado não me perder. Às vezes caio uns tombos. Dou rasteira em mim mesma. Fujo um pouco da rota e quero tirar férias dessa coisa de tentar. Um recomeço é a coisa mais linda e dolorida que se pode ter. É a colisão entre tudo que se perdeu e tudo que se há de construir. É o intervalo entre o "ainda não" e o "agora sim". É a mão vazia gritando pra ser preenchida.

Acredito que quando as coisas estão muito cheia de remendes, o melhor a se fazer é destruí-las e começar do zero. É desafiador, dolorido e colorido. É a dor de desabrochar pra um dia se ver florido. Tá chovendo agora, mas eu sei que depois vai raiar o maior sol. Olhei no espelho novamente e reafirmei: É só uma fase chata. Tempestade dá e passa. Agora vê se te levantas. Sorri e vi pela janela a chuva acalmando.  É só uma fase: E eu já upei tantas... 

*imagem via reprodução

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.