Nova Perspectiva

17 de abril de 2016

Sobre a pirataria de sentimentos


Estava esperando para ser atendida no dentista, dia desses, e me peguei folheando uma revista teen que havia sob a mesinha em frente à poltrona. Eu decorria sem interesse os olhos sob as páginas, mas, algo chamou a minha atenção. Era um teste: "Você está pronta pra amar?" Calma, não foi isso que me interessou. Fiz testes assim na minha infância, mas agora já sou crescidinha. O que acontece é que tenho olhos de poeta e mente que faz tempestade em cima de qualquer copo d`água. Eu transformo tudo em debate psicológico e poesia, meu bem. Principalmente, quando se trata de amor.

É que eu cansei de gente banal. Cansei de sentimentalismo barato e "eu te amo" que até ursinho de R$ 1.99 diz. Cansei de gente vivendo palhaçada e chamando de amor. Cansei da vulgarização da coisa mais bonita do mundo, pra mim.

Já ouvi muito nesse pouco tempo de vida, muitas frustrações, muitos desabafos de pessoas sofrendo e jogando a culpa no amor. Não aceito a colocação. Não aceito porque amor não faz sofrer. Não aceito porque tem gente que diz sofrer de amor, mas não sabe o que o amor é. Ninguém sofre com produto de qualidade, o que frustra são as imitações que a gente compra por aí, de gente que vende jurando que é original.

Ouso dizer que vivemos em um verdadeiro Paraguay - com todo o perdão dos nativos - de sentimentos. A gente não quer pagar o preço do amor de verdade. A gente não quer esperar lançar. A gente aceita a primeira imitação parecida que puxa a nossa manga e vende baratinho. A gente se acomodou com pirataria, porque é ingênuo. Quem entende de produto original nota de cara o que não é. Quem sabe o que é amor não aceita a má colocação.

Amor não é explosão, não causa fogos de artifício, nem nada assim. Não é avassalador, muito menos cego. O nome disso é paixão.  Amor não é uma troca de beijos, um mero status no facebook, uma promessa no calor do momento, uma idolatria que aceita tudo, um ioiô que vai e vem, o nome disso é apego.  O amor não é telefone desligado na cara, agressão verbal, cara virada, o nome disso é raiva. O amor não é ciúmes, negociação de valores, correr maratonas pra agradar quem não valoriza, o nome disso é insegurança. O amor não é nada do que está estampado nas revistas. Não é nada do que as histórias de filmes contam entre conflitos, gritos, desespero, brigas violentas e reconciliações cheias de tesão.

O amor traz paz, assim como o Criador dele. É sentimento constante entre todas as inconstâncias da vida. É olhar pra alguém cheio de defeitos, visíveis e irritantes, e ainda assim, permanecer com a certeza de que é ao lado desse alguém que você quer dormir e acordar todos os dias. É aceitar uma mala que não é sua, cheia de marcas, cicatrizes, traumas, medos, sonhos e ajudar a carregar, colocando tudo em seu devido lugar.

Amor é compreensão, é confiança, é ter um melhor amigo (a) pro resto da vida. É estar ao lado de alguém que te incentiva e sonha os seus sonhos. É poder contar com alguém que chora com a sua dor e vibra com as suas conquistas. É uma escolha honrada e construída a dois. Quando se constrói sozinho, não é amor, é solidão. Quando só você se esforça, dá a cara a tapa, faz das tripas coração, não é amor, é obsessão. O amor é produto original e caro, que só será alcançado por quem souber esperar a hora e estiver disposto a pagar o preço.

Ninguém sofre por amor. Sofre-se pela ausência do mesmo. Sofre-se pela incompreensão, pela ignorância, pelas consequências da aquisição de uma imitação mal sucedida. Pare de banalizar o que é precioso. Deixe ir aquilo que não lhe faz feliz. Livre-se do que não te acrescenta. Sabe-se que não se trata de amor quando alguém lhe traz muito mais tristeza e conturbações do que alegria. Sabe-se que não é amor quando estar ao lado desse alguém não te faz querer evoluir. Tudo aquilo que é bom desperta em nós uma vontade de ser melhor, mas o contrário disso, só nos faz pior.

O amor não causa desespero, não aceita orgulho, não divide espaço com o ego inegociável. É presente concedido apenas a quem saberá fazer bom uso. E para bem utilizá-lo a dois, precisamos antes, aprender a ser um.

O amor vem pra complementar, pra transbordar, pra melhorar o que já era bom. Não é privilégio de quem faz do outro requisito pra sobreviver, pra ser feliz, pra sorrir pra vida. Carência e insegurança só nos levam à pirataria. Ame-se, aprimore-se, seja a melhor versão de si mesmo, entenda seu valor, e então, aí sim, eu te respondo, sem teste de revista nenhum, ou nenhuma outra banalidade divulgada pela mídia:  

Você estará pronto (a).

*imagem via reprodução

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.