Nova Perspectiva

26 de abril de 2016

Querido idiota

Não me leve a mal moreno, eu sei que não pega muito bem começar uma carta assim, de um jeito tão rude, como se eu tivesse te agredindo ou já quisesse chegar com e mil e uma pedras na mão, mas não precisa fugir não, dessa vez eu não vim te acusar de todas as coisas que você não fez, eu vim te agradecer, por todas elas, inclusive! Vim te falar que você fez tudo errado e me fez chorar de um jeito doído por noites e noites e noites, mas que eu acordei um tempo depois com o sol batendo na minha janela como se berrasse: vambora menina, transforma isso daí em lição de vida. E eu transformei.

Eu preciso te agradecer por você ter sido um completo idiota. Sim moreno, é isso mesmo. Eu ainda não estou louca, juro! E também não estou delirando, é que eu, de verdade, eu só preciso te agradecer por você não ter atingido nenhuma das minhas expectativas, se não fosse isso eu jamais teria descoberto que eu mesma podia me fazer feliz. Se você não tivesse me decepcionado tanto e me machucado tanto, eu não teria me transformado na mulher que sou hoje: segura, inteira e independente. De um jeito torto foi graças a você que eu descobri que não tem nada pior do que esperar que alguém te preencha, quem deve fazer isso somos nós mesmos.

Eu aprendi na raça como me reconstruir, não ache que foi fácil: precisei suar a camisa pra colocar tudo no lugar, mas é que quando eu vi que meu coração estava despedaçado pela casa senti que precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, pra trazer um pouco de paz aqui pra dentro. E eu fiz. Juntei caquinho por caquinho, limpei bem cada espacinho pra não restar nenhum resquício de você e fui colando um por um. Deu um trabalhão daqueles, sabe moreno? Foi pior que faxina de domingo, precisei ter paciência, colocar pra secar e saber esperar o tempo fazer o serviço dele, mas depois de alguns dias só tinha restado uma marquinha bem pequena que me lembra todos os dias que eu não posso me abrir pra qualquer um.

A gente não deve ficar esperando que alguém apareça pra nos completar, agora eu sei, agora eu entendo, depois de tudo que eu sofri, depois de tudo que eu chorei, as coisas começaram a fazer sentido e é por isso que hoje eu me basto sozinha. Eu me basto porque graças a você eu também descobri que não vale a pena viver implorando por migalha dos outros, menos ainda passar os dias mendigando por um punhado de sentimento falso, que não vale nada, como o seu não valia. Depois de você eu não aceito que ninguém mais entre se não for pra ser inteiro. Amor pingado mata a alma e dessa doença eu não padeço mais.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.