Nova Perspectiva

25 de abril de 2016

O que é que fizemos com o nosso amor?

Te vejo saindo de casa com todas as suas coisas guardadas numa mala de viagem e tenho vontade de correr até onde você está antes que cê atravesse a porta e esteja de uma vez por todas fora da minha vida. Sinto vontade de tirar a chave da sua mão e te segurar pelo braço pra poder dizer que fizemos tudo errado, que demos em uma merda grande, dessas imensas que fedem até a gente querer vomitar, mas que ainda dá tempo de sentarmos juntos pra nos reconstruirmos. Só que não dá. A gente sabe. Todo mundo sabe. Por isso me mantenho estática do outro lado da sala enquanto te vejo sair sem poder fazer nada pra impedir. Foi a melhor decisão. Cê precisa ir agora. É inevitável. E dói. Queima. Arde. Fere.

Sinto a garganta se fechar com as palavras que deveriam estar aqui, mas que não estão. Pela primeira vez não tenho nada pra falar e sei que você também não tem mais o que dizer. Pela primeira vez estamos despidos das máscaras que nos destruíram, das máscaras que nos transformam em personagens dentro de uma história que era pra ser de verdade. Estamos nus, descobertos daquelas fantasias que nos transformaram em um casal corrompido pelo próprio ego e eu posso reconhecer o cara pelo qual eu me apaixonei. Você me vê também. Pena que é tarde demais. Pena que já não adianta a gente procurar entender o que foi que fizemos com o nosso amor. Nós nos destruímos. Ponto. Não tem mais como mudar isso.

Cê busca pelos meus olhos uma última vez, esperando por alguma coisa que te force a mudar de ideia, e eu te vejo, mas desvio o rosto rápido, encaro o nosso retrato na parede e lembro daqueles dois jovens no começo de tudo, enquanto nada além do que sentíamos importava. Eles que corriam da chuva, se escondendo do mundo e se achando um no outro. Eles que tinham tantos planos e tantos sonhos e tanto amor. Eles. E vejo a gente depois. Vejo o que fizemos com aquele casal apaixonado. E me arrependo. Me arrependo de todas as vezes em que a gente não disse nada, ou que dissemos menos do que deveríamos.

Lembro dos filhos que não vamos ter e daquele cachorro que a gente não adotou. Lembro das viagens que nós não vamos mais conseguir fazer, do sitio pra passar as férias que jamais compraremos, da hortinha no jardim que acabamos nem fazendo. Lembro de como a gente podia ter sido feliz. E me arrependo mais, me arrependo de todas as vezes que só precisávamos ter sido nós mesmos, com os nossos defeitos e erros, mas agimos feito dois atores que fingem viver um amor de conto de fadas. Me arrependo de termos aceito ser esse casal pros outros verem graça, pros outros acharem bonito. Me arrependo de ter deixado que a gente se tornasse aquele casal que sempre tivemos medo de ser.

Aquele que vai em festas e escuta o tempo todo a sorte que tem de viver uma relação tão perfeita. Nenhum casal é perfeito, mas preferimos ignorar o inevitável e nos tornamos mais um amor de rede social, que posta foto sorrindo e beijando e brindando e finge que tá tudo bem enquanto joga pra baixo do tapete todos os problemas. Aquele que foge da briga duas, três, quatro vezes, até que um montão de problemas se aglutinam e se torna difícil continuar agindo como se nada estivesse acontecendo. Olho pra dentro de você pedindo desculpa e recebo o teu perdão ao mesmo tempo em que te perdoo. Pena que só isso não basta.

O mais triste amor, digo antes que cê saia pra nunca mais voltar, é que lutamos tanto pra virar um daqueles romances que fazem os olhos dos outros encherem de lágrimas, que acabamos cada um chorando de um lado.

Um comentário:

  1. Só percebemos que a paixão virou amor quando conseguimos superar juntos os problemas que nós mesmo inventamos, ser o casal perfeito para as pessoas é assinar seu divórcio, não assumir que os problemas existem em uma relação demostra o quanto franco vamos ser quando a beleza não for a principal atração !!

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.