Nova Perspectiva

23 de abril de 2016

Eu me curei de você


Você não faz ideia de quantas noites, por sua culpa, eu perdi pra insônia. Saltava da sala pra cozinha e da cozinha pra sala sem tirar os olhos do relógio enquanto me perguntava o que é que você podia estar fazendo sem mim. Foram incontáveis madrugadas em que achei que enlouqueceria sem saber se você tinha cruzado com alguém melhor que eu nessas festas que você ia só pra inflar o ego. Eu vasculhava o seu perfil na expectativa de alguma foto nova ou algum comentário dos seus amigos, só pra saber se eu ainda podia esperar por você no dia seguinte.

Cê não conseguiria nem imaginar todos os sábados que eu desperdicei com o celular na mão e a esperança de que você fosse me procurar consumindo cada parte do meu corpo. Eu olhava a cada cinco minutos as notificações em busca de alguma mensagem sua perguntando se podia vir me ver mais tarde e chorava cada vez que eu me dava conta de que você não ia vir. Nem hoje, nem depois, e nem depois. Você só vinha nos dias em que nenhuma de suas outras opções estavam disponíveis, quando o dinheiro tava curto demais pra fechar o camarote da balada que você gostava ou pra levar alguma daquelas meninas que você colecionava pra jantar. Cê vinha, sim, mas só quando não tinha nada melhor pra fazer.

Nunca fui sua primeira opção, nem mesmo a terceira, eu era a última, sempre fui, porque você sabia que de todas elas eu era a única que te esperaria. Era. Uma hora cansa, sabe? Ser feita de estepe, ficar com as sobras, com as migalhas. Demorou, mas eu fiquei de saco cheio de te ver ir embora quando surgia algo melhor e voltar quando bem entendia. Certo dia alguém me disse “enquanto você continuar aqui, vai ser cômodo pra ele” e então a ficha caiu. Enquanto eu continuasse lá, você ia poder continuar indo e vindo quando bem quisesse, enquanto eu continuasse lá, a sua vida ia poder continuar andando com a certeza de que, de um jeito ou de outro, ainda teria eu.

Caí fora sem te dar aviso prévio. Acordei num dia com a certeza de que eu merecia muito mais do que aquilo e fui atrás do meu melhor. Não te falei meu novo endereço, menos ainda o meu destino, não deixei pistas pra que você me encontrasse, nem bilhetinhos escondidos pra me boicotar, eu não tava fazendo aquilo pra chamar a sua atenção, eu tava fazendo aquilo pra sobreviver. Cê demorou pra reparar, e quando se deu conta eu já tava forte o suficiente pra te enfrentar de frente e te mandar embora. Veio arrependido, sem saber o que tava acontecendo, cheio de promessas e desculpas e a garantia de que dessa vez seria diferente. Não vai, eu sei. Nunca é.

Pode dar meia volta, não vou abrir a porta pra você entrar, nem deixar uma frestinha da janela pra que você pule pra cá, tranquei meu coração e a minha alma, você já não é mais bem-vindo por aqui. Não adianta disparar a campainha e nem insistir ligando desesperadamente, não te atendo, nem hoje e nem depois. To curada dessa história em que eu vivi sozinha enquanto cê se perdia em outros romances. To curada dos planos que eu fiz sozinha e das noites em claro, to curada, inclusive, da esperança que eu reguei no meu jardim como se fosse margarida sem me dar conta de que, na verdade, se tratava de erva daninha. To curada, de tudo isso, e de você.

Um comentário:

  1. É como um "princípio da geladeira", a pessoa te deixa guardada ali para quando quiser ou precisar, encontrar tudo em perfeito estado para ela mesma. A reserva congelada de carinho, amor e dedicação gratuita...
    E você se contenta por um tempo, de fazer parte dessa armadilha do coração, mas isso dói, suga e corrói aos poucos.
    A dor é tamanha, que você passa a não aceitar mais as submissões conscientes em busca de algo que na verdade não é seu, é como uma luta inglória.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.