Nova Perspectiva

6 de março de 2016

É sobre os olhos dela

Via reprodução
A conheci em uma noite de verão. Dessas que a gente mal consegue dormir. Estava sentado em um botequim, tomando alguma coisa com um cheiro forte e um gosto horrível. Não lembro.

Não sou desses caras que costumam lembrar muito. Aliás, quem é? Os caras não lembram, você sabe bem, velho. Se lembram, é porque é importante. E eu lembro tanto dela...

Não lembro de quantos drinques bebi naquela noite. Não lembro da cor da minha camisa. Não lembro. Mas eu lembro dela.  E de como ela chegou. E de onde ela sentou. E de como ela me olhou, assim, sem querer.

É que ela me atravessou fundo. Naquela noite, e em todas as outras 175. Eu lembro, de cada uma.
Os olhos dela despertaram algo dentro de mim que eu não conhecia, cara. E eu desejo que, se você tiver sorte nessa tua vida, você possa enxergar neles o que eu enxerguei. E que eles te encantem assim. E te toquem assim. E te convidem e te convençam a ir aonde ela for, só com uma levantada de sobrancelha, dessas que ela sempre foi especialista em fazer. Você vai saber. Por favor, saiba. Ou devolve ela pra mim, cara.  Aqueles olhos dizem coisas demais e seria um desperdício que eles vivessem ao lado de alguém que não saiba apreciá-los.

Não digo que você precisa interpretá-los. Na verdade, eu também confesso que nunca soube. Mas eu sabia que tinha muita coisa lá, cara. Eu sei. E eu estaria disposto a dedicar todos os dias da minha vida na tentativa de desvendá-los, se ela deixasse. É que na vida de alguém assim, perdido feito eu, meio prepotente e egoísta, ela é luz.

Ela iluminou tudo que eu jamais imaginaria que tivesse solução. Até me fez cantar. E eu não tinha tomado nenhum drinque. Nenhum, cara. E nunca fui tão feliz. Quem precisa de álcool pra ficar alegre, não conhece ela. Não conhece aqueles olhos, capazes de embriagar mais do que qualquer uma dessas porcarias que eu tomo por aí e nem sei o nome. Hoje eu até tento memorizar, porque ando de garrafa em garrafa na esperança de encontrar alguma que me faça esquecê-la. Nenhuma faz, cara. Por isso, me escuta:  Não perde ela. Nenhum daqueles vinhos granfinos que tem no teu estoque vai te deixar mais tonto do que perdê-la. Aliás, se perdê-la, já és um tonto, mesmo sóbrio, como eu fui.

Eu a perdi, num dia desses. Entre o meu orgulho e o meu ego. Entre um drinque e outro. Entre a minha incapacidade de compreender o que os olhos dela diziam e ela esperava tanto que eu entendesse. Mas eu não entendia.

Hoje eu entendo. Por isso, segue o meu conselho, cara. Larga tudo o que tu estiver fazendo agora e corre abraçar ela. E olhar naqueles olhos com a convicção do que eu te digo: Ela é a melhor coisa que vai acontecer na tua vida. A mais confusa, confesso. Vai virar tudo de ponta cabeça. Esvaziar os cômodos. Tirar as coisas da gaveta. Porque ela é meio convicta demais e quer as coisas do jeito dela. Ela vai bagunçar um pouco teus pensamentos, tuas certezas e aguçar mais do que nunca as tuas dúvidas. Mas, se você dedicar-se a compreendê-la, ela vai arrumar a tua vida.  Porque ela é exclamação que se inclina só pra confundir. Ela é o mistério mais escancarado e lindo que tu vai ter a chance de descobrir. Mas dê o teu máximo, como eu dei, mesmo não sendo o suficiente.

Ela é luz e eu sou trevas, cara. Ela é o brilho do sol e eu sou o escuro da noite. Ela é vitamina de morango e eu sou um copo vazio em um botequim.

Ela precisou ir. O lugar dela não era comigo. Nunca foi. E eu vi que, mesmo tendo isso escrito na minha testa, ela insistiu até mais do que eu me achava digno. Ela tentou me salvar, cara, mas eu sou um caso perdido. Espero que você não seja também.

Eu nunca consegui interpretar aqueles olhos. Mas na saída daquele mesmo botequim, com um sorriso delicadamente formado pelo puxar do canto do lábio dela, ela me olhou. Não mais com alegria. Não mais com aquele labirinto negro tão profundo e indecifrável que me fez cantar em plena sobriedade. Ela me olhou com os olhos molhados, apáticos, sem entrelinha alguma, que, pela primeira vez, permitiram-se ser interpretados.

E com um gosto muito mais amargo do que a bebida que eu segurava naquele copo, com um piscar de cílios dela, eu engoli: Adeus.

Hoje, nada do que eu tomo é tão forte ou me tira tanto o rumo quanto a sua partida. Mas a chegada dela é doce.

Esvazie todo o seu estoque e encha o teu copo com a sua presença. Se assim o fizer, a sua ressaca vai ser amor. A minha, é saudade.

É tudo sobre os olhos dela, ou, sobre mim...
Sem eles.

Um comentário:

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.