Nova Perspectiva

25 de março de 2016

Das coisas que eu queria poder te contar

Senta aqui moreno, passei o café quase agora, pega um copo, é, um copo, que as xícaras tão todas sujas na pia. Não estranha a bagunça, eu ainda to tentando descobrir como é que eu vou arrumar todo esse caos que ficou depois que você se foi. Puxa a cadeira aqui do meu lado e deixa eu te olhar um pouco. Assim, desse jeito que cê tá, meio longe, meio perto, sorrindo sem jeito, quase sem querer (querendo), eu consigo lembrar porque foi que eu me apaixonei por você. Eu sei que cê não quer falar disso, mas deixar tanta coisa engasgada aqui dentro de mim não tá me fazendo bem, virou questão de saúde moreno, cê sabe, tenho o estômago fraco e a gastrite ataca rápido.

Preciso que você me escute um pouco, prometo tentar ser breve e não chorar, depois cê pode ir embora se quiser, só preciso dividir esse peso contigo, porque, no fundo, você sabe que ele também é seu.

Por muito tempo eu acreditei que a gente era coisa do destino, dessas sem explicação que acontecem sem motivo, que existem porque tem que existir. Algo de vidas e vidas passadas, como nesses filmes que falam sobre alma gêmea. Eu achei que nós éramos uma a do outro e não me leve a mal, é que você sabe que eu sempre tive uma dose extra de romantismo correndo em minhas veias, talvez eu só tenha me enganado quanto a nossa grandeza, talvez o nosso amor só seja muito menor do que eu queria que ele fosse. Talvez moreno, eu só não quisesse enxergar que você não era o cara do cavalo branco que tinha chego pra me salvar de mim mesma.

A gente se engana amor, pode ser que eu tenha me enganado, mas e daí? O que isso muda o que eu sinto agora te vendo ao meu lado? Nada. Não muda nada. Se eu fechar os olhos ainda posso lembrar da primeira vez que eu te vi, meio perdido atravessando a avenida em frente aquela casa que eu morava com os meus pais, você também se lembra? Era uma casa velha, de esquina, tão grande que eu quase me perdia. Te convidei pra um café, você me chamou pra entrar na sua vida. E eu não escolhi sair. Foi questão de um jantar, dois almoços e três porres, pra eu ir morar com você. E agora eu to aqui, sozinha no apartamento que um dia foi nosso e que a gente dançou quase sem roupa ao som daquele disco antigo que a gente comprou numa lojinha no centro da cidade.

Agora eu to aqui moreno, tentando fingir que a solidão tá suportável, que eu to bem, to forte, to inteira, enquanto na verdade eu não to. Não me peça pra entender os seus motivos, não me peça pra esquecer que a gente jurou em frente a lareira daquele chalezinho em campos de Jordão que iriamos envelhecer juntos. Não me peça pra fingir que nada daquilo existiu, nem pra que eu esqueça que a gente passava a tarde discutindo os nomes dos nossos filhos, que não terão mais a chance de nascer. Eu to aqui moreno, desesperada com a angustia de não saber se você volta, mesmo sabendo que a campainha nunca mais vai disparar e que nunca mais vai ser você. Agora eu to aqui falando com o seu retrato como se ele fosse você e enlouquecendo sem que ninguém possa assistir.

Não precisa sentir pena não, eu sei que essa cena tá patética, que você reviraria os olhos e pediria um pouco menos do meu drama. Um pouco menos de tudo. Mas você nunca vai ver mesmo, você nunca vai saber que toda essa situação degradante existiu, porque você mudou seus números, não me passou seu novo endereço e nem as redes sociais são mais as mesmas. Nada continua igual. Só o meu amor. E você também nunca vai saber que eu te amei quando os seus olhos acharam os meus na calçada em frente à minha, nunca vai saber que eu torci pra você não reclamar do meu café amargo e que achava a sua macarronada uma droga, mas você fazia com tanto carinho que eu dizia pra mim mesma que era o melhor macarrão que eu já tinha comido em toda a minha vida.

Você nunca vai saber de tanta coisa porque tudo o que você deixou pra trás foram coisas insignificantes, um moletom velho, um perfume quase acabado, duas ou três cervejas, que eu até já bebi, e uma foto que me faz lembrar todos os dias que eu não to pronta e nem quero te esquecer. Não posso, porque ao contrário de você eu não sei trocar de livro como se não houvessem mais páginas ainda em branco esperando por nós pra serem escritas. Cê disse desde o começo preu tomar cuidado, porque você era volúvel demais. Volúvel... Volúvel não moreno! Volúvel é o meu choro vendo algum filme dramático na televisão, é o meu desejo por chocolate e aquele regime que eu começo toda segunda, você só é egoísta.

A verdade é que depois de tantos meses e tantos planos e de todos aqueles desabafos sobre os seus traumas e o medo de acabar igual os seus pais, eu achei que podia confiar que, pelo menos uma vez na vida, você tinha encontrado algo que iria te fazer querer ficar. Mas você não quis. Você fugiu e eu só fui descobrir isso quando acordei e a mesa tava posta com um bilhete de despedida. Um bilhete moreno? Você sequer teve coragem de me dizer adeus, você sequer olhou nos meus olhos e disse que não me amava mais, sequer me deu uma explicação pra todo o vazio que deixou no apartamento e em mim. Você não teve coragem amor, porque eu sei que se me olhasse por meio segundo desistiria dessa loucura e ficaria, jogaria pro alto essa ideia de que amor é algema e amaria comigo.

Mas agora não adianta mais. Não adianta porque essa foto não é você, porque o almoço eu pedi só pra um e nem o nosso disco eu acho mais. Você deve ter levado. Não adianta porque o teu cheiro tá indo embora e eu já acabei com o seu perfume, porque eu to esquecendo do teu jeito e da tua voz e das nossas promessas. Não adianta mais, porque eu não tenho como te contar tudo isso, não tenho como te pedir pra voltar porque tá foda olhar pro lado e não ter você na cama, e tá foda mesmo, sabe? Saber que não importa o quanto eu grite, só quem vai ouvir são os vizinhos me pedindo pra calar a boca. E eu calo e choro porque foi só essa chance que você me deu, foi só isso que você deixou pra que eu fizesse: chorar.

E eu choro e te espero e prometo que vou ter mais paciência pra sua mania de jogar a tolha molhada em cima da cama e vou reclamar menos do seu futebol empatando a minha série e vou parar com essa coisa de não querer comer carboidrato à noite. Esquece a sopa, a gente pede uma pizza, abre um vinho e fica junto, mas só quem me escuta é o seu retrato, é essa foto velha que eu ainda lembro quando a gente tirou, foi no começo, quando pra sempre ainda fazia sentido. E ele, que já tá todo dobrado nos cantos de tanto que eu pego e aperto, não vai te falar o tamanho da falta que você me faz.

*imagem via weheartit

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.