Nova Perspectiva

21 de fevereiro de 2016

É tarde demais, não adianta voltar agora

Via reprodução
Tudo bem se arrepender de algo e querer voltar atrás pra tentar dar um jeito nos estragos que causou, mas o relógio não anda pro lado contrário moreno, e a gente não pode voltar ao passado pra consertar todas as mancadas que nós demos. Você não vai conseguir deletar as vezes em que eu tentei te deletar de mim. Cê entende o que eu quero dizer? Nada do que você faça vai apagar as marcas que eu carrego aqui dentro, nada vai me fazer esquecer os dias intermináveis em que cheguei a acreditar que morreria por sua causa, por sua falta. Nenhuma palavra bonita vai excluir todas aquelas vezes em que você resolveu brincar com o meu coração e o devolveu todo remendado esperando que eu não notasse a sua falta de cuidado. Não importa o quanto você tente, chega um momento em que a doença já se alastrou pro corpo todo e não tem mais cura. Nenhum remédio vai ser capaz de salvar a nossa história.

Eu já sofri demais por sua culpa, já me tranquei no quarto por horas e horas tentando esquecer do mundo pra ver se eu me lembrava de alguma coisa que não fosse você. Cê não faz ideia de quantas vezes eu me perguntei o que é que eu tinha que te impedia de ficar, porque você vinha e me fazia acreditar que finalmente ia dar certo, mas de repente cansava de fingir que estava apaixonado e ia embora de novo sem ao menos se importar se ficaria tudo bem por aqui. As coisas foram ficando cada vez pior por muito tempo. Eu morria um pouquinho a cada segundo em que você vivia em outros braços e tentava sobreviver porque eu sabia que uma hora ou outra o arrependimento ia bater e você voltaria. E eu abria a porta, deixava você entrar, prepara um jantar, acendia algumas velas e a gente dançava na cozinha do meu apartamento como numa cena de um filme antigo regado de uma boa trilha sonora, mas no dia seguinte você já não estava mais aqui. Em todos os outros dias seguintes eu estive sozinha. E eu comecei a aprender a lidar com isso.

Passei a ser minha própria companhia moreno, e digo isso com o orgulho de uma criança que começa a amarrar sozinha os próprios cadarços. Cansei de dividir taças de vinho com a solidão enquanto via um drama na televisão e chorava, mais por mim do que pela história, então passei a buscar pela minha felicidade. Teve uma hora que eu aceitei que você não viria mais, tinham alguns boatos de casamento, uma gravidez talvez, eu não sabia ao certo o que tava acontecendo, mas eu tinha certeza que não era nada entre a gente. Com o tempo fui descobrindo que algumas coisas só dependem de nós. Eu não tava disposta a abrir mão do resto da minha vida por alguém que nunca pensou em dividi-la comigo. A gente sobrevive até que se lembra de como é bom sentir o vento na cara e decide que tá na hora de voltar a viver. Fui apagando nossas lembranças e abrindo mão do que me lembrava nós dois. Reformei a casa e a vida, ao ponto de esquecer a forma como você me olhava e então, finalmente, eu me livrei da gente.

O problema é que você percebeu isso e tocou a minha campainha no meio da madrugada pedindo pra entrar só um pouquinho. Você sempre ficou só um pouquinho moreno, isso não era novidade, o diferente é que dessa vez eu fechei a porta. Não vou mentir que o coração não acelerou quando você disse que anda pensando muito em mim, mas onde é que cê tava todas as vezes em que eu chorei pela sua falta? Por onde você andou enquanto eu te buscava descontrolada por essas ruas sem nome e me perdida cada vez mais de mim mesma? Não adianta voltar agora moreno, não adianta porque eu passei noites ao lado do telefone esperando você me ligar e ele sequer chegou a tocar, eu tentei acreditar em nós mesmo com o mundo desacreditando e você me provando cada vez mais o quanto eu não deveria confiar na gente. Eu dei tudo de mim e recebi menos que nada porque você nunca teve o que me dar, então não adianta tentar me convencer de que as coisas mudaram e que eu não saio da sua cabeça e que agora cê se deu conta do que tava perdendo, eu não vou acreditar.

Não confio mais nas suas mentiras e nem me forço a querer confiar, é tarde demais pras suas desculpas balançarem as minhas pernas, reformei todas as estruturas daqui de dentro desde a última vez em que você arrebentou comigo. Eu to preparada pra ver você passar por mim sem sentir meu corpo bambear. Agora eu to forte moreno, agora eu sou outra e essa outra descobriu que você jamais seria capaz de segurar com força na minha mão e enfrentar o mundo pra fazer dar certo, você pode até suportar uma noite ou outra dormindo de conchinha e se forçando a acreditar que está apaixonado, mas o teu amor é ego, é birra de quem perdeu e não sabe lidar com a derrota, é vaidade de menino mimado, por isso ele não vai resistir por muito tempo acordando na mesma cama. Uma hora dessas cê vai cansar de brincar de casinha e vai embora, só que eu não to mais disposta a isso. Não to mais disponível pra entrar no teu jogo. Não quero mais, nem adianta vir, nem adianta insistir. Eu já te dei muitas chances, agora to dando uma pra mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.