Nova Perspectiva

26 de fevereiro de 2016

Amor não muda, mantém

Via reprodução

Eu mudei o meu mundo pra ver se assim você ficava, talvez se tudo fosse mais familiar você pudesse se adaptar em mim, quem sabe? Troquei meu blues pelo seu reggae, Machado por George R. R. Martin e os filmes de comédia pelos de aventura e guerra e sangue. Minhas barras de cereal pelas de chocolate e a corridinha no parque pela temida academia. Troquei o cinema de domingo pelo futebol na tv, o restaurante italiano deu lugar à churrascaria da avenida e os meus móveis de casa deixaram que os seus se encaixassem aqui. Coloquei teus discos na estante da sala junto dos meus livros de romance, suas roupas no armário dividindo o pouco espaço com as minhas, sua escova ao lado da minha e o seu cheiro no outro canto da cama. Desocupei lugar na geladeira pras suas cervejas entrarem, desocupei lugar em mim pra que você coubesse. Fui deixando as coisas como você queria, as paredes menos coloridas e mais brancas, os dias menos ensolarados e mais nublados, a vida menos leve e mais pesada.

Com o tempo fui me transformando em uma espécie moldada nos seus gostos, desde o aroma adocicado do perfume até o vermelho nos lábios. Criei um personagem que casava com tudo que você considerava perfeito, pintei o cabelo de preto, renovei tudo o guarda-roupa e aprendi sobre economia, política e comércio exterior, como se alguma vez na vida eu tivesse me interessado por algo que fosse além das palavras. Programei viagens pro outro lado do mundo e toda essa baboseira que você achava legal, cool, e no final de tudo não demos em nada. Cê foi embora numa segunda-feira antes mesmo do sol nascer e nunca mais voltou. Não deixou mensagens na caixa postal, não tentou ligar, nem deixou um mísero whatsapp pra avisar que, caramba, não dava mais. A gente não dava mais fazia muito tempo. Eu já sabia disso, por mais que me forçasse a acreditar que alguma coisa aconteceria e nós nos ajeitaríamos tava nítido que não tinha mais jeito, desde o começo só eu me esforcei, você não tentou de nada. Eu dei tudo o que eu tinha e quando vi que precisava de mais deixei de ser eu, talvez este tenha sido o maior problema.

A partir do momento em que eu percebi que precisava ser outra pessoa pra, quem sabe, você querer ficar comigo, tudo já tinha corrido pra debaixo da terra. Quando a gente tem que mudar por alguém é porque este alguém não gosta da gente. Eu só não tava pronta pra aceitar, porque eu não queria admitir pra mim que não era você. Eu queria que fosse, eu precisava que fosse porque eu já tinha esperado demais e sofrido demais e eu achava que não podia me perder daquela história. No fundo eu não queria ter de assumir que, mais uma vez, eu tava apostando errado, tava me entregando pra alguém que não era o bastante pra me aguentar. De novo eu tinha me jogado numa história incompleta, unilateral e doentia, mas ver isso machucaria ainda mais. E eu fui me iludindo sozinha enquanto aqui dentro a minha cabeça martelava que não importava o que eu fizesse, não podia tentar mais nada pra te obrigar a me amar, por mais que eu me encaixasse em você e me deixasse de lado nada bastaria, nada seria suficiente pra que cê me ligasse dizendo que tava com saudades da gente, porque você não tava. Porque a gente nunca existiu, nem aquela menina que eu tentei ser pra você.

A gente não comanda os sentimentos dos outros, e tudo bem, mesmo. Eu entendi o que você quis dizer quando saiu de fininho durante a madrugada: se nem eu estava sendo sincera comigo mesma, porquê você teria de ser? Se nem eu conseguia me olhar no olho e encarar aquilo que eu tinha feito comigo, o que te obrigava a me olhar e avisar que tava indo embora? A sua ausência foi o vazio que eu precisava pra notar que estava tudo errado, eu tava fazendo as coisas de um jeito torto que não podiam se encaixar. Revirei do avesso toda a minha vida pra você entrar com a sua e agora era a minha que não conseguia se inserir em nada do que me cercava. Eu não cabia mais num espaço que sempre foi meu. Aquelas coisas, aquela pessoa, aqueles passeios aos finais de semana, aquilo era um personagem fajuto que não preenchia nem a si mesmo, quem dirá a outro alguém. Eu quis tanto ser sua, que fui deixando de ser mim, achei que desse jeito cê ia me querer ai dentro, mas eu tava errada, me mudando só fiz você se mudar daqui. 

Quando a casa ficou vazia e o eco mudo do meu choro deixou de enlouquecer o ambiente, tive de me encarar no espelho. E tava pior do que eu imaginava. Foi difícil trazer tudo de volta, a casa tava esquisita e o meu cabelo também e as minhas roupas pareciam de outra pessoa - e eram - mas cadeira por cadeira eu fui ajeitando tudo até voltar a ser como era antes de você. Até voltar ao que não devia ter deixado de ser. E pode ter certeza que eu aprendi: quando for pra ser, será do jeito que já é, sem precisar tirar nada do lugar.

Um comentário:

  1. Gabi, eu amo os seus textos parece que você escreve cada capitulo da minha vida... <3
    http://lepetitmondedeglorya.blogspot.com.br/

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.