Nova Perspectiva

6 de fevereiro de 2016

Ainda tem muita coisa que eu não te falei

Via reprodução
Oi, tudo bem? Lembrei de você ontem e quis te ligar, mas aí lembrei que não tenho mais teu número anotado nem na agenda e nem na cabeça, então preferi deixar pra lá. Mas me conta, como é que anda a sua vida? E as aulas, já voltaram? As minhas já, só que é aquela coisa: o ano só começa mesmo depois do carnaval, então tudo ainda anda bem tranquilo por aqui. Ah, eu também consegui um emprego, você foi a primeira pessoa em quem pensei na hora de contar, mas sei lá, sabe? Acho que não tinha clima pra isso. Como tem sido suas madrugadas sem ter com quem jogar conversa fora? As minhas passam cada vez mais devagar, mas tudo bem, eu tenho aprendido a lidar com essa situação. Tenho aprendido a lidar com muita coisa desde que você fechou a porta na cara da nossa história.

Eu sei que to falando demais sem falar coisa alguma, mas to enrolando com essa conversinha mole porque o papo vai ser duro, não tem outro jeito, ainda tem muita coisa que eu não te falei e que preciso colocar pra fora. Então senta aí, pega um café e segura o tranco. Eu prometo tentar ser breve. Sabe, quando você voltou eu achei que podia ser a nossa chance, a nossa grande chance, e então depositei todas as fichas que tinham me sobrado nessa possibilidade, eu não tinha muito no bolso, porque eu saí falida de todas as vezes em que nos encontramos, mas pensei: e se dessa vez for diferente? Então juntei as minhas moedinhas, fechei os olhos e me joguei. Por alguns instantes eu achei que você estaria lá embaixo pra me segurar, mas quando o chão chegou e eu senti meu corpo inteiro ser estraçalhado pelo concreto eu entendi que não entendia nada entre a gente. Por que você sempre vai embora quando a coisa parece estar se encaixando?

Eu sempre fui muito mais coragem que medo, mais emoção do que razão, sou desse tipo de gente que não olha pra baixo antes de se atirar de cabeça, eu só vou. Nunca parei pra medir as consequências e os riscos dessa história, nunca parei pra pensar no quanto isso tudo valia a pena, nem se valia, e se eu tivesse, provavelmente, não teria apostado em nós dois. Mas apostei. Apostei uma, duas, três vezes e talvez até apostasse mais se eu já não tivesse sacado que não vai rolar, a gente, essa coisa, isso aqui, não dá, entende? Nós não vamos acontecer e nem é por falta de amor ou de vontade ou de esperança, eu queria, quero, e muito possivelmente vou querer pra sempre, mas você é medroso demais pra viver um amor de verdade. Você é medroso demais pra topar se entregar ao ponto de perder o controle de si mesmo. Diferente de mim, que te entreguei meu coração numa bandeja sem analisar como ele poderia voltar. Eu não queria ele de volta, compreende? É isso que você não entendeu. Eu nunca quis que cê devolvesse meu coração, eu só queria que você me desse o seu em troca.

Por muito tempo eu fiquei apegada aquela história de que o mundo dá voltas e o que é nosso sempre volta pra gente, até que eu descobri que voltar, as vezes, não é o suficiente, a questão maior é ficar. Em todos esses anos tivemos inúmeros reencontros, alguns apressados, outros mais calmos, alguns que estavam quase pra virar encontro quando você surtou e fugiu, outros que já começavam errados. Tivemos incontáveis oportunidades de dar um jeito dessa coisa toda acontecer e eu tentei de verdade, tentei com toda a minha vontade e dedicação. Tentei o suficiente pra ter a consciência limpa por ter feito de um tudo por nós dois, só que cê nunca foi forte o bastante pra continuar no barco. Todas as vezes, sem tirar uma, cê saltou antes da viagem acabar. Talvez seja culpa do seu estômago sensível demais pra mares agitados e borboletas hiperativas, talvez seja a sua mania de ser racional demais na vida, talvez, só talvez, seja porque você nunca botou muita Fé na gente e tudo bem, sabe? É só uma pena você não ter visto todo o nosso potencial — ou ter enxergado e ter saído correndo por não saber o que fazer pra lidar com ele.

Alguns amores acabam sem final, de um jeito meio torto, meio triste, que deixam estampado pro mundo que a vida não é um conto de fadas. A gente acabou sem nunca sequer termos tido a chance de começar alguma coisa, qualquer coisa. A gente acabou sem que eu soubesse o que você sentia, o que você pensava, o que você queria. A gente acabou sem eu ter tido a chance de te dizer olho no olho que eu te amei muito, que eu te amei descontroladamente, de um jeito que eu nunca mais vou amar nesta vida. A gente acabou e eu nem pude te dar um último beijo, um último abraço, um último sorriso. Acabamos de repente, sem mais nem menos, porque a história ficou pesada demais preu carregar sozinha e cê não quis emprestar teu ombro pra dividir o peso comigo. Acabamos e eu nem lembrei de anotar teu número pra mandar uma mensagem bêbada numa dessas madrugadas. Acabamos e a única lembrança são as conversas que a gente teve e que pareciam dizer tudo, mas não diziam nada. Você sempre pareceu dizer tudo, mas nunca teve coragem de dizer a verdade.

Por mais triste que seja, por mais doído que esteja, eu sei que aconteceu o melhor pra mim. Pelo menos pra mim, porque você talvez se arrependa lá na frente quando parar pra olhar pra trás e de repente entender do que abriu mão. Talvez você ainda se lamente por ter me deixado ir e se pergunte por que foi que cê não voltou pra me segurar. Uma pena que a gente só entenda o que tem, quando perde. Você perdeu, porquê dessa vez eu só pedi pra Ele que a gente fosse o que tivéssemos de ser. Não fomos, e isso já é tudo. Não fomos porque era isso o que a gente era: um acaso atrasado que teimava em fazer alguma coisa existir. Não existiu, nunca, nada, e nem dá mais pra criarmos alguma coisa agora. Ficou tarde demais, infelizmente. Que o mundo gire, eu sei que de algum jeito você ainda vai reaparecer, mas dessa vez eu vou tomar cuidado pra que a gente não se esbarre de novo. Acabaram as fichas, o tempo e o amor. Agora termina teu café e pode ir embora, vou sentir sua falta, mas daqui em diante eu só vou aceitar quem for ficar.

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