Nova Perspectiva

23 de janeiro de 2016

Você vai ter que ficar pra amanhã

Via reprodução
Não me leve a mal, moreno, mas hoje não vai dar. Não é nada pessoal, te juro, e nem uma dessas vingancinhas que a gente tem mania de planejar pra devolver na mesma moeda. Eu jamais faria nada contra você, pelo menos não de propósito. Eu só não to disponível agora, entende? Mas não precisa ficar andando desesperado atrás do próprio rabo fantasiando quem foi o príncipe encantado que apareceu no meio do caminho e me fez te esquecer, não tem ninguém além de mim ocupando o meu tempo. E eu também não te esqueci, só to precisando passar uns dias com a minha própria companhia. 

Quando você foi embora e me largou com toda aquele caos mental pra organizar sozinha eu precisei aprender a lidar com a solidão. Não é fácil olhar pra todos os lados e só ver o eco da própria dor moreno, eu achei que ficaria presa no meio daquele lamaçal e que nunca mais conseguiria me reerguei, mas os dias foram passando e eu fui me dando conta de que não podia fazer aquilo comigo. Eu não podia desistir de mim só porque você tinha cansado de insistir na gente. Passei por algumas semanas conturbadas enquanto eu nadava contra a correnteza que queria me afundar cada vez mais na sua falta.

Fiz da frase “um dia de cada vez” meu mantra e fui vivendo exatamente como ela diz. Um dia de cada vez. Aos poucos organizei sua bagunça, coloquei em ordem os meus armários e tirei o que não servia mais daqui de dentro, enquanto eu me livrava de toda aquela tralha velha um pedaço da gente foi junto. Eu pude sentir meus ombros ficarem mais leves sem aquela obrigação de nos carregar nas costas, com o tempo eu me livrei do resto da nossa história. A parte mais difícil do fim não é aceitar que acabou, mas compreender que não adianta lutar pra manter vivo as lembranças de algo que não vai voltar a existir.

Eu abri mão da gente, porque eu entendi que ficar agarrada a tudo que nos lembrava não ia te trazer de volta. E então eu voltei. Retomei as rédeas da minha vida e encontrei dentro de mim o que tanto me faltava. Eu fui meu próprio remédio, fui a minha cura contra toda aquela dor que você causou, e é só desse jeito que a gente se recupera de verdade. Somos só nós que podemos cuidar das nossas feridas. Foi trabalhoso me reerguer e voltar a andar com as minhas pernas, por isso eu prometi que manteria a porta fechada quando você voltasse, mas quando a campainha tocou eu senti o coração balançar de um jeito estranho. Ainda amo você, mas agora eu me amo mais.

Não fui eu que matei a nossa história, eu só enterrei o que já estava morto. Precisei fazer isso pra não ficar enterrada naquele passado, eu não queria, nem podia, ser só uma sobra de nós. Agora tudo aquilo não nos cabe mais, as nossas promessas não servem, as declarações ficaram ultrapassadas, e os nossos sonhos não são mais os mesmos. Aquele nosso “nós” não existe e não há nada que possamos fazer pra ele voltar, o que a gente pode é construir um novo, do zero, mas isso vai ter que ficar pra amanhã. Hoje eu to ocupada aproveitando o que eu perdi com você, então, por favor, volta mais tarde.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.