Nova Perspectiva

19 de janeiro de 2016

Monólogo sem fala 6

Via reprodução
Dez textos pela metade, uma xícara vazia com resquícios de café descafeinado e uma hora de choro entalado. Bem-vinda, segunda-feira. Ou seria terça? Não tenho certeza se já é dia ou se ainda é madrugada, se é hoje ou ontem ou amanhã, eu perdi os dias depois que te perdi. A janela fechada reforça o cheiro de dor que exala pelo quarto. Já faz um tempo que tudo anda muito escuro por aqui e eu só consigo enxergar a ausência do seu corpo ao meu lado na cama. Não há mais nada que indique a sua passagem por aqui. Desde que você se foi só restaram os espaços vagos de tudo o que você levou embora. Só sobrou a saudade que consome meu peito e rasga minha alma como um lobo feroz sedento por destruição. Só ficaram as lembranças das promessas feitas entre um vinho e outro enquanto algum jazz ecoava pela sala e a gente dançava e se despia pelo apartamento. E a gente ria, embriagados, felizes, como se nada pudesse estragar aquela explosão dentro de nós. Mas você estragou.

A casa ficou maior sem o nosso amor. E eu fiquei menor. Tudo parece estar vazio sem a nossa risada e os nossos beijos e as madrugadas perdidas pelo chão do quarto. Tudo parece sem graça. E está. Tenho tomado mais café desde que você desocupou o armário, e fumado mais cigarros e tragado a sua falta. Você levou as suas coisas embora, colocou dentro de uma sacola rasgada e uma bolsa velha as suas roupas e os seus discos de vinil e aquela garrafa de vodka que bebemos no natal e o meu coração. Junto das suas tralhas um pedaço de mim foi embora, por aqui só sobrou metade de uma mulher que um dia foi inteira. Ignoro o óbvio e mais uma vez tateio desesperadamente por algum vestígio seu que tenha sido esquecido, mas nem teu cheiro quis ficar. Nem aquele teu perfume vagabundo que empesteava a casa inteira restou pra me lembrar que você sempre cheirou à cafajeste.

Você não vai voltar, não é? Eu sei. Respiro fundo tentando descobrir quantos dias eu to aqui. Dois, quatro? Faz quantas semanas que a minha alma morreu e ninguém salvou meu corpo? Suspiro. Fecho os olhos e os aperto com força na tentativa de travar uma guerra inútil contra a insônia. Tem muita coisa presa aqui dentro. Engulo o grito que infla a traqueia. Posso te ouvir berrando pelos cantos da casa que eu ainda vou acabar explodindo com essa mania de engolir um pouco de tudo. Se eu fechar os olhos consigo te ver me abraçando com força e pedindo pra pelo amor de Deus eu por pra fora tudo o que está me incomodando e sinto seu beijo seco enquanto o frio me corta a pele. E grito. Grito porquê dói uma pancada forte no corpo inteiro e pesa uma tonelada nas minhas costas e eu sei que não posso fazer nada.

Eu esperei você voltar ontem e anteontem e no dia em que você bateu a porta e saiu sem olhar pra trás, porque essa nossa história tava ficando comum demais para um cara como você. O nosso amor virou rotina e eu não te servia mais, você precisou ir atrás de voos maiores e eu despenquei montanha à baixo sem ter ninguém pra segurar a minha mão. Admito em silêncio que você não vai vir. E choro. Choro uma tempestade de amargura. Choro o vazio do seu corpo e as lembranças que não saem do nosso quarto. Choro e grito e choro um pouco mais e reviro na cama tentando arranjar um jeito disso passar. Sem você é bem mais difícil. Estico o braço e pego o celular desligado na esperança de saber o que fazer. Ou de você ter me ligado. Seco os olhos. São três da manhã, já é terça-feira e não tem nenhuma mensagem na caixa postal. Dói.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.