Nova Perspectiva

30 de janeiro de 2016

A gente tem que viver o nosso luto

Via reprodução
Chorei dois dias seguidos por você, não um desses choros mansos que caem gota a gota no travesseiro sem causar muito estrago, mas um daqueles choros doídos que fazem o nosso corpo se retorcer na cama de tanta dor. Um choro vomitado com força de dentro da alma. Durante essas 48 horas eu senti cada pedacinho de mim queimar feito papel em brasa e achei, por diversas vezes, que não iria suportar. Mais uma vez não. Enquanto as lágrimas rolavam com brutalidade no meu rosto, eu me perguntava como é que tinha me permitido cair de novo daquele jeito, como foi que eu me deixei enganar com o seu papinho se já conhecia de cor e salteado o seu jogo?

Eu não lutei contra o meu desejo de despejar um oceano pelos olhos, nem tentei engolir os gritos que beiravam os meus lábios. Eu não tentei evitar aquele show patético, nem reprimi a minha vontade de reler as nossas mensagens e de olhar o seu perfil a cada quinze minutos com esperança de que houvesse alguma coisa lá que fosse pra mim. Eu não me segurei, nem me coagi, nem tentei fingir que estava tudo bem. Não tava. E eu não ia agir como se estivesse. Postei um bocado de indiretas em quase todas as redes sociais pra ver se alguma te atingia, mandei todas as mensagens que eu achei que deveria mandar, te xinguei e também me declarei, e fui ignorada sem sucesso porque eu não deixei barato, fui ao fundo do poço, perdi o pouco que me restava de dignidade e me humilhei da pior maneira pra ver se você voltava. Mas não adiantou nada.

No fundo, no fundo, eu sabia que nada do que eu fizesse adiantaria pra salvar a nossa história, mas precisava tentar. Eu precisava fazer de tudo antes de pular fora do barco e deixar que ele afundasse sozinho. Eu precisava sentir, sabe? Eu precisava sentir e viver o nosso ponto final, é que as vezes deixar doer é tudo o que se pode fazer. Ou eu expulsava aquilo de dentro mim ou aquilo iria me colocar pra fora mais dia ou menos dia. A gente só tira uma coisa de dentro de nós quando nos damos a chance de vive-la. Eu vivi. Deixei esses dias passarem em câmera lenta sem tentar controlar nenhum dos extintos que afloraram. Arranquei cabelo, roí unha, joguei fora nossas cartas, rasguei as nossas fotos e chorei. Chorei muito. Chorei até secar e adormecer em cima das minhas lágrimas. Chorei até acordar com os olhos secos e o coração vazio.

A verdade é que a gente tem de sentir o nosso luto se quer fazer com que ele sare, a gente tem que encarar a nossa dor se quer fazer ela passar. Jogar pra baixo do tapete não faz sumir. Deixar de lado não cura. Eu precisei fazer papel de trouxa, chorar igual mocinha de cinema e sofrer igual as Helenas do Manoel Carlos pra conseguir reencontrar a minha felicidade. O mundo não acaba quando um romance chega ao fim, mas a gente só descobre isso quando deixa tudo morrer junto com ele pra poder renascer livre pra uma nova história. Eu permiti que a dor morresse enquanto engolia o fato de termos morrido também e no terceiro dia eu já estava pronta pra recomeçar sem ter você comigo. E eu recomecei.

3 comentários:

  1. Seu texto, minha história Gabi ... Hoje faz 3 dias que eu chorei, chorei como se a dor nunca fosse passar, chorei porque eu já tinha vivido uma ilusão parecida e deixei me envolver de novo, deixei acontecer tudo de novo ... Dessa ultima vez, não prometi nada, porque eu sei que vou sofrer novamente. Eu só queria achar alguém que cuide de mim, que não me engane, que seja sincero, e toda vez que eu penso que achei, eu me decepciono ...
    "T."

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  2. Fiiiiia, tu arrasa 😱😱😱 merece demais esse mérito, Parabéns demais 😍😍😍👏

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  3. Obrigado.
    Ainda dói muiito , mas seu texto me deu um abraço.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.