Nova Perspectiva

16 de janeiro de 2016

A carta que eu nunca te mandei

Via reprodução
Já perdi a conta de quantas madrugadas passei escrevendo alguma coisa pra você, moreno. Textos sem grande importância que foram se perdendo no meio de tantas outras cartas sem endereço. Eu acertei muita gente enquanto tentava te acertar. Fiz textos que se espalharam no meio de outros corações apaixonados sem que você sequer tenha ficado sabendo que eles existiam e eram seus. Talvez eu mesma não quisesse que você descobrisse, talvez eu tenha tido medo de você notar que era da gente que eu falava. Por puro orgulho, eu achei que você era obrigado a entender tudo aquilo e fazer alguma coisa porque, na minha cabeça, eu já tava fazendo a minha parte. Joguei muitas palavras pro ar torcendo pra que cê pegasse alguma delas e entendesse o que eu queria dizer. Entendesse que eu tava gritando naquelas linhas o que eu silenciei durante anos. Não sei se algum dia você nos leu no meio daquelas declarações veladas, não sei se você se esforçou pra entender o que eu tava querendo falar, mas no fundo, bem no fundo, eu sei que nunca disse nada demais. Eu nunca falei o que você queria ouvir. Nem o que precisava.

Talvez cê tenha esperado bem mais de mim. Eu também esperava mais de você e tudo bem, porque o erro é nosso de colocar no outro a expectativa daquilo que a gente não faz, sabe? Mas agora já não tem problema, moreno, agora já passou muito tempo e eu entendi que não dá pra cobrar o melhor do outro quando não estamos dando o nosso. Eu também queria que você tivesse me pedido pra ficar e contado que todas aquelas músicas trocadas no meio da tarde diziam o que você não conseguia me dizer, porque, da minha parte elas sempre disseram tudo. Eu também queria que você tivesse me roubado um beijo naquele dia em que eu disse que tava indo embora e queria que tivesse me dito que ia ficar tudo bem, mas você nem olhou pra trás quando eu me virei e comecei a andar. Você nem chegou a segurar minha mão como uma última tentativa de salvar a gente. Cê sequer me procurou pra saber se eu não tava arrependida, porque ali, antes das nossas vidas seguirem por caminhos opostos, eu tava. Eu também queria um monte de coisa e esperei que você fizesse todas elas sem nem me dar conta do que eu não tava fazendo.

Eu nunca disse que queria que você ficasse e nem te roubei beijo algum quando percebi que tava te perdendo. Eu só deixei acabar como se não houvesse importância e não doesse te perder assim. Eu não falei o quanto acreditava na gente e que eu queria que tentássemos dar certo. Eu queria que a gente desse certo e tava disposta a tudo pra isso, mas não fiz nada. Eu esperei que você desse o primeiro e o segundo passo enquanto eu te esperava notar o que eu tava sentindo. Eu nunca falei que você era a minha poesia e que tudo o que eu escrevia tinha um pouco da gente. Eu nunca te enviei nenhuma das cartas que eu fiz e joguei fora a maioria delas após finalizá-las, por medo de que alguém lesse e te contasse o que eu tanto queria que você descobrisse: que eu era, e sou, completamente louca por você. Eu nunca fui mais forte que o meu ego e o meu medo e por isso eu sempre fingi que não fazia diferença mesmo estando estampado em mim o quanto eu queria você. Eu nunca fiz um monte de coisas e mesmo assim joguei no teu colo a responsabilidade de fazer a gente dar certo. Eu depositei em você um montante de coisas que eu esperava e fiquei sentada assistindo você se virar.

Eu podia ter feito muito mais e você também. Eu podia ter te dito que sentia saudades mesmo correndo o risco de ter de engolir o seu silêncio no outro lado. Eu podia ter dito que eu pensava em você e que pensava na gente e que não entendia porque tínhamos permitido que fossemos transformados em nada se podíamos ter sido tudo. Se a gente tivesse deixado de lado toda aquela pose de superior e aquela competição por quem liga menos, talvez tivéssemos nos ligado cada vez mais. Se a gente tivesse jogado menos e se jogado mais, talvez tivéssemos dado certo. Talvez, moreno, se a gente tivesse dito tudo sem medo de parecer mais fraco não teríamos, agora, tantas palavras engasgadas no meio de nós. Eu me arrependo de todas as vezes que pude fazer algo, mas esperei que você fizesse primeiro, me arrependo das mensagens que eu não mandei, das ligações que eu não fiz e dos textos que eu escondi. Eu me arrependo de ter feito dessa história uma grande encenação e por ter perdido a gente por medo de arriscar.

Eu me arrependo muito de muita coisa e talvez seja tarde demais, mas não importa, dessa vez eu não quero ir embora sem ter certeza que eu tentei de tudo e dei o meu melhor pra gente sair do papel e ganhar a vida. Dessa vez eu não vou, nem posso, jogar pra baixo do tapete e te ver ir sair sem confessar que eu espero que você fique, moreno, que eu quero que você fique e que eu to aqui de braços abertos pra gente ver onde é que isso vai dar, porque eu não sei se vai dar certo, mas eu sei que to disposta a fazer de tudo pra que dê. Dessa vez eu não vou engolir mais nada e nem rasgar nenhum papel ou jogar todas essas coisas pro vento, dessa vez eu quero que você saiba que eu sempre amei você.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.