Nova Perspectiva

20 de dezembro de 2015

Eu superei a gente

Via reprodução
Outro dia, numa dessas reuniões de amigos no bar depois de uma semana exaustiva na faculdade, uma das minhas amigas falou o seu nome no meio da conversa de forma descuidada, como se isso não tivesse importância alguma, eu acho que depois de tantos meses ela nem se deu conta de que era você, e que eu estava ali e que aquilo já tinha doído bem mais. O resto da mesa me olhou com atenção, como se buscassem por uma crise repentina de choro ou algo do tipo, nem chegaram a disfarçar os olhares de preocupação — e curiosidade —, ela, na outra ponta, me implorava por perdão bem baixinho se sentindo culpada por aquele crime terrível que foi te ressuscitar no meio de uma sexta-feira, e eu só conseguia me perguntar como foi que eu deixei as coisas chegarem a este ponto. Quando foi que você se tornou assunto proibido entre os meus amigos? Por que eu não percebi que tudo estava assim? Sorri meio envergonhada pela situação, mas conforme a cena foi clareando na minha cabeça eu não contive o riso, aquilo era tão patético que só me sobrou rir de mim mesma. Sei que muitos demoraram pra entender o que estava acontecendo, mas aos poucos, um à um, eles foram caindo na gargalhando junto à mim, sem que fosse necessário falar nada, porque todos já sabíamos o motivo daquilo tudo: eu tinha te superado.

Eu passei meses sem ouvir falar de você, me esquivei pelos cantos pra te evitar sempre que calhava de estarmos no mesmo lugar, fui recusando convites de festas quando via seu nome confirmado na lista, eu me escondi da gente pra não ter que encarar que nem existíamos mais, no fundo eu não queria aceitar que a gente tinha acabado, não só no status das redes sociais, mas dentro de mim também. Quando você foi embora eu li uma penca de manuais de autoajuda, desses bem toscos comprados em banca de jornal, buscava naquelas páginas algo que me fizesse te esquecer, mas de nada adiantava, eu devorava letra por letra e conselho por conselho, e você continuava aqui, como aqueles cupins que cismam com cadeiras velhas e não saem independente do veneno que a gente jogue. Eu não sabia o que fazer pra te despejar de dentro de mim, eu não sabia de onde tirar forças pra levantar, sacudir a poeira e recomeçar minha vida com teu lado na cama vazio. Teve uma época que eu já nem sabia se o que eu sentia era amor ou medo de ficar sozinha, porque a solidão, cara, a solidão também dói. Pra te esquecer eu acabei escolhendo a maneira mais óbvia quando te deletei de todas as redes sociais e fiz minhas amigas jurarem que não falariam de você, eu não queria saber da sua vida.

Foram semanas difíceis as que se passaram, desativei os aplicativos do meu celular pra não cair em tentação no meio da madrugada, parei de assistir as séries que víamos juntos e troquei os livros de amor pelos policiais, com muito sangue e pouco beijo na boca, eu tinha alguns dias bons, daqueles que a gente mal lembra o quanto a falta dói, mas também tive outros péssimos, meus amigos pegaram até bode do seu nome de tanto que me viram chorar por sua causa, mesmo sem te ver não foi fácil te esquecer. Eu nem sei bem quando foi que isso aconteceu, não tinha percebido que não te amava mais até ouvir o seu nome sem sentir todo o peso do nosso fim eu não sabia que tinha te superado até alguém me lembrar que eu precisava te superar, acho que esse é o segredo da superação: a gente não sabe quando acontece, nem como. Talvez tenha sido depois daquele primeiro encontro com o carinha de engenharia, ou depois do primeiro cara que dormiu ao meu lado, no seu lugar, talvez durante a viagem que eu fiz sozinha pro nordeste, pode ser, ainda, quando arrumei o guarda roupa e consegui jogar todas as suas coisas fora sem chorar. Pode ser que tenha sido na nossa data de namoro que passou sem que eu lembrasse, ou quando eu esqueci seu telefone. Pode ter sido dia desses ou o mês passado ou dois meses depois que você se foi. Eu não sei, o que eu sei é que sem querer eu acabei descobrindo que superei a gente. E é isso que importa.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.