Nova Perspectiva

22 de dezembro de 2015

Dois mil e quinze

Via reprodução
Analiso o calendário pendurado na porta do guarda-roupa e passo o dedo pelos dias restantes, parece que foi ontem que o ano começou. Agora, falta pouco para que os fogos estourem anunciando a entrada do novo ano. Falta pouco pra que um novo ciclo se inicie e eu sempre fui apaixonada por começos, por essa ideia de que depois de doze meses tudo se renova e a vida nos dá uma segunda chance. Sempre amei janeiro, como eu sempre amei os primeiros capítulos dos livros e o começo das novelas e as segundas-feiras, isso não é novidade, a diferença é que dessa eu também estou amando o final. Logo eu, que sempre detestei fechar ciclos, que vivo falando mal dos domingos e não aprendi a escrever últimos parágrafos. Logo eu, que não assisto a última semana da novela e nunca termino uma série; eu que sempre preferi as vírgulas aos pontos finais e não sei me despedir de uma história. Eu, que nunca gostei de dezembro, nunca abracei o dia 31 e nem me empolguei com a virada. Logo eu, que sempre fugi do último dia do ano, estou contando os dias pra vê-lo chegar.

Volto as folhas do calendário até chegar em janeiro. Doze meses. É tempo pra caramba e ao mesmo tempo não é nada. Passaram voando, mas também engatinharam devagarinho como se estivessem tentando durar pra sempre. Dois mil e quinze foi um desses anos difíceis de classificar, porque ele não quis saber de ser meio termo, nasceu cheio de vontades, sem ter medo de mostrar para o que veio. E ele mostrou. Foi ruim, mas também foi bom, foi longo, mas também foi curto, e será inesquecível, disso eu tenho certeza. Será inesquecível porque em meio à tanta crise eu to saindo com saldo positivo, e não é da minha conta bancária que eu estou falando. Quando o primeiro raio de sol surgiu numa quinta-feira, de certa forma, eu já sabia que muita coisa ia acontecer. E foi acontecendo, dia após dia, semana após semana, de forma tão leve que as mudanças mal podiam ser notadas. Fui me livrando de bagagens que não eram minhas e eu não precisava carregar. Fui me livrando de pessoas que não eram minhas e eu não precisava carregar. E a viagem foi ficando mais leve, os meses foram vindo e com eles eu fui percebendo que alguma coisa estava diferente, demorei pra descobrir que não era o mundo que tinha mudado, era eu. Era a minha forma de enxerga-lo.

Dizem que a gente precisa cair muito pra aprender a levantar. Eu discordo. A gente precisa cair, sim, mas é pra aprender a andar direito. A verdade é que levantar é fácil, todo mundo consegue com um pouquinho de esforço e um pouco de técnica, difícil é não cair de novo, é saber reconhecer o terreno em que está pisando e mudar de trilha quando sabe que não vai acabar bem. Eu não aprendi a levantar — isto eu sempre soube, depois de uns tombos fica fácil descobrir como a gente faz pra se reerguer. Eu aprendi a não cair. Ou melhor: a evitar quedas desnecessárias, porque cair, meu caro, a gente sempre vai. Eu aprendi a desviar de areias movediças, a pular de penhascos e a evitar as pedras. Eu aprendi, mas não foi fácil. Nunca é. Tombei com incontáveis crateras no meio do caminho e foi impossível não cair em algumas delas, mas depois de ir ao fundo do poço tantas vezes e voltar pra cair de novo, eu entendi que enquanto a gente não entende o porquê está lá a vida sempre dá um jeito de nos empurrar de volta.

Eu precisei lidar com os meus problemas, precisei tirar a poeira debaixo do tapete e arrumar toda a minha bagunça. Não dava mais pra deixar pra amanhã, eu precisava fazer isso pra ontem. Tive que colocar o dedo na ferida e cutucar até o sangre estancar e ela virar uma cicatriz pequenininha e sumir pra sempre, deixando só uma marquinha, daquelas que ficam pra que você não se esqueça que algumas coisas podem machucar. Então, depois de chegar na raiz do problema e ficar de frente com o que doía, eu estava de volta, novamente, firme e forte, pra caminhar um pouco mais. Não é tão ruim quanto parece, a gente acaba descobrindo que remediar a dor não faz doer menos, às vezes a gente só tem que sentir até acabar. E eu senti. E acabou. E o ano foi perdendo as folhas sem que eu pudesse perceber o que estava se aproximando. Agora eu sei, e não me importa, porque não é o fim. Nem o começo. É só a minha continuação. Hoje eu entendo que 2016 só vai me trazer coisas boas porque teve dois mil e quinze. No fundo não é o ano, nem quando é bom e nem quando é ruim, é sempre a gente.

4 comentários:

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.