Nova Perspectiva

26 de novembro de 2015

Vai sem medo, menina

Via reprodução
Nem precisa me contar que eu já sei, aí dentro já doeu demais, dessas dores que esmagam cada espacinho do nosso corpo e parecem que não vão passar nunca. Você já sangrou um desses sangues invisíveis que saem da alma e escorrem pelos machucados que essas histórias incompletas nos deixam, já sofreu de ver o coração esmagado por promessas que nunca foram cumpridas e já chorou por longas madrugadas até achar que secaria inteira. Nem precisa me contar que você já colecionou babacas e que se entregou mais de uma vez pro cara errado, eu sei de cor e salteado todas as vezes que você resolveu tentar mais uma vez e quebrou a cara, o corpo e o peito. Eu sei, menina, que a gente cansa de atirar pro lado errado e acaba desistindo de procurar pela mira certa. Eu sei que arde os hematomas que a vida vai brotando em nós com cada final infeliz que o destino enfia no meio da gente. Mas eu também sei que você não nasceu pra abaixar a cabeça e engolir essa ideia de que você nasceu pra morrer sozinha.

Ninguém nasce predestinado a solidão, você sabe disso, e eu te admiro por levantar a cada tombo sem deixar a peteca cair, te admiro porque você é forte o suficiente pra saber que nenhuma fraqueza pode ser maior que a gente, te admiro porque você continua andando mesmo sabendo que vão ter pedras, buracos, armadilhas e que seu coração ainda vai ser quebrado muitas e muitas vezes. Ainda vai doer, sangrar, apertar e você ainda vai borrar o rímel com muito cara idiota. Mas você não vai desistir, porque você é do tipo que se quebra inteira, mas não deixa de acreditar. Cê pode até achar que o mundo vai acabar no dia seguinte, pode ligar bêbada no meio da madrugada e largar teu orgulho em uma dessas esquinas, mas vai continuar se reerguendo quando perceber que a sua cota estourou, vai partir pra outra sem se importar se a bagagem vai ficar mais pesada, porque quando não der mais pra andar cê sabe que pode jogar fora. E é o que você faz, e é o que te faz ser assim, que eu mais admiro.

É essa certeza de que a vida continua mesmo quando tudo conspira contra, é essa maturidade pra entender que as vezes a gente precisa apanhar um pouco, mas que isso não significa que vamos apanhar pra sempre. É essa sua coragem de meter a cara em mais um romance depois de tantos fracassados que já te fizeram encharcar o travesseiro. Então vai sem medo, menina, se joga desse penhasco emocional sem se preocupar se a queda vai doer, no final eu sei e você também sabe que não é isso que importa. Então se atira nessa linha de risco, briga contra o mundo, mas não desiste de você, não abre mão do que você acredita, não joga fora o seu final feliz. Vai sem medo que o amor é pra quem não se amedronta na primeira madrugada escura, pra quem não foge no primeiro susto e não se esconde com medo dos monstros embaixo da cama. O amor é pra quem fecha os olhos e pula do precipício sem parar pra pensar por quanto tempo ainda vai haver uma outra mão pra se segurar. Vai, mas vai sem medo, vai com a cara e a coragem que a vida te ensinou a ter. Vai, que uma hora ele vem também. A gente sabe.

3 comentários:

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.