Nova Perspectiva

11 de novembro de 2015

O dia em que descobri que era boa demais pra você

Via reprodução
Você caminha despreocupado com os dedos pela minha coluna enquanto eu me esforço pra não te amar o tanto que eu te amo. Olho o relógio estático no criado mudo, faz anos que a pilha acabou e eu não consigo me lembrar de comprar outra, sem movimento ele insinua que já passou da hora de colocar um ponto final nessa nossa história. Embarco nos seus olhos esverdeados me perguntando o que é que você tem que me faz querer ficar mesmo sabendo que eu mereço muito mais. Você sorri e eu luto pra não me perder ai dentro, de hoje não passa, prometo em silêncio pra mim mesma, mas em um grito silencioso eu peço pra que você não me deixe ir. Peço pra que você me peça um pouco mais de tempo pra resolver a sua situação, mesmo sabendo que ela nunca vai mudar. Peço pra que você implore de joelhos pra que eu mude de ideia porque a vida vai ficar sem graça se você não tiver mais pra onde fugir. Peço pra que você despeje a sua coleção de mentiras e prometa o impossível pra que eu não desista da gente.

Te vejo ajeitando a roupa enquanto responde as últimas mensagens no seu celular. Eu nunca fui a única e é isso que mais dói. Eu nunca fui a única e nem a primeira e nem o seu amor e é isso que me mata. Você arruma o cabelo e senta ao meu lado como se só isso fosse o suficiente pra me fazer compreender que é pros braços dela que você tem que voltar. Encaro o teto tentando entender o que é que ela tem que te faz ficar, eu nunca descobri o que é que faltava em mim que você encontrou nela. Eu nunca entendi por que eu nunca te bastei mesmo tendo me virado do avesso pra encaixar em você.

Você suspira me avisando que está na hora de ir embora e eu trago pra dentro a vontade de chorar. Engulo seu rosto tentando cravar em mim cada marquinha sua e vômito o cansaço de ser a sua vida dupla. Não dá mais, aviso. Você me analisa tentando descobrir o quão verdadeira essa frase é, desconfiado cê diz que não entende o que eu quero dizer. Te explico, eu sou boa demais pra você, amor, sou boa demais pra viver escondida, na sua sombra, esperando a sua agenda esvaziar pra receber o que sobra do seu amor. Não dá mais, então eu to indo. 

Sua expressão permanece imutável, por mais que eu queira, por mais que eu tenha cultivado um punhado de esperança que me fazia acreditar que aos quarenta e cinco do segundo tempo você tomaria alguma decisão e que ela seria eu, você não vai fazer nada pra me impedir de fugir. Você sempre teve pra onde ir e eu nunca fui o seu porto principal. Sua cabeça acena em um sim, avisando que entende a minha escolha e o meu corpo pesa como se estivesse despencando de um precipício emocional. Tenho vontade de gritar e chorar e te abraça avisando que foi tudo um grande engano e que eu mudei de ideia e não tem problema continuar como está, mas permaneço em silêncio na expectativa de que você fale mais alguma coisa. Engasgo com o eco que nossos corações criam e te peço pra ir embora. Você levanta, pega a chave do carro, a carteira e me beija com força como se quisesse guardar meu gosto, me pergunta se vai ficar tudo bem e eu respiro fundo sem saber o que te responder. A vida sempre fica, amor, mas eu prefiro andar um passo de cada vez. Primeiro eu preciso me curar de você.

E já não tem mais ninguém aqui.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.