Nova Perspectiva

13 de novembro de 2015

E se o nosso destino não for ficar junto?

Via reprodução
Observo você caminhando alguns metros na minha frente, tento não apressar o passo mesmo sabendo que com essa lentidão eu vou perder o ônibus, hoje eu não quero que você me veja, e também não quero te perder de vista. Faz alguns meses que voltamos a pegar o mesmo caminho, uma das várias peças que a vida vive pregueando em nós dois, parece uma dessas coincidências bobas de quem mora no mesmo bairro, e é bem provável que seja, mas aqui dentro de mim uma voz ecoa garantindo que é mais que isso.

Me pergunto se faz alguma diferença, pode ser que seja o destino que fez com que agora, vez ou outra, nossas esquinas se cruzem e uma saudade apertada invada um pouco o peito de cada um de nós. Mas pode ser a vida, no sentido mais cru da palavra. Você subiu de cargo, conseguiu o tão esperado aumento e a posição que tanto sonhou, agora sai mais cedo pra conseguir dar conta de todo o trabalho que caiu nas suas costas, eu mudei de horário na faculdade e troquei a noite pelo dia, o despertador daqui de casa toca antes que o céu ganhe o tom alaranjado do amanhecer. Talvez não seja nada além do que é, mas nós continuamos tão apegados com a ideia de que ainda podemos ser alguma coisa, que ficamos criando teorias para o que acontece só porque tem que acontecer.

Nos entreolhamos de rabo de olho enquanto esperamos o semáforo ficar vermelho, em silêncio vamos sendo devorados pela imensidão de coisas que podiam ser ditas, e não são. Nem serão. O sinal fecha e eu fico pra trás. Te vejo partindo como eu já vi tantas e tantas vezes. O sinal volta a ficar verde e você encara o vazio ao seu lado procurando por algo que já sumiu faz tempo. Eu suspiro e analiso a fumaça que forma com a minha respiração por causa do frio. De repente sinto a ponta do estômago ser esmagada por uma sensação quase desconhecida, o sinal volta a ficar vermelho e eu permaneço inerte e tenho impressão de que faz tempo que eu parei no tempo. Preciso de um café, constato, e que se dane a primeira aula.

Volto pra padaria que ficou alguns passos pra trás e peço por um pingado bem forte, olho pela janela e você ainda está no ponto, retribui o meu olhar procurando por algo implícito na minha reação e provavelmente não encontra nada, porque não tem. Eu também não sei o que houve, amor. Você senta no ponto praticamente vazio e eu te analiso sem fazer questão de disfarçar. Calça jeans, jaqueta de couro, sapato social, cigarro na boca, o cabelo bagunçado e a mochila pendurada em um só lado do ombro. O retrato vivo de uma imagem que não sai de dentro de mim. Faz quantos anos que deixamos de contar os nossos anos? 3? 5? Não sei. Se tudo tivesse dado certo, já seria o nosso oitavo aniversário. Mas não é. A gente acabou se perdendo de nós mesmos, fomos levando com a barriga sem ter coragem de olhar o mar de lama em que estávamos nos enfiando, criamos explicação fantasiosas e cheias de teorias inexplicáveis pra justificar a certeza de que ainda acabaríamos juntos. Mas essa certeza nunca existiu, no fundo a gente sabe. 

Termino o meu café com pouco leite no momento em que seu ônibus chega, você entra e eu saio, atrasada demais pra correr, mas no tempo certo pra perceber que não importa quantas vezes o destino, os astros ou os deuses cruzem os nossos caminhos, não importa o quanto meu coração teime em achar que é o seu, não é, pelo menos não nessa vida. Não estamos fadados a ficar juntos, ainda que estejamos fadados a lembrar pra sempre que não ficamos juntos. Alguns amores são mais amargos que café sem açúcar, é por isso que eu aprendi a não adoçar o meu. 

Demorei anos, mas resolvi te beber de uma vez. 
Num gole só dói menos, 
mesmo que doa pra sempre.

5 comentários:

  1. Que texto é esse? To apaixonada e me arrepiei todinha!
    Beijão http://valeumasnao.blogspot.com.br/

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  2. Uooou que texto maravilhoso ! ❤👌

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  3. Lindo texto lembra a história de minha sobrinha Gabriela quase real lindo lindooo

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  4. Amei o texto! Seus textos são perfeito e o mais incrível e que eu sempre me identifico, as vezes até brinco falando "como ela pode contar a minha história sem me conhecer." E esse é mais um que me identifiquei, inclusive os anos que você cita no texto e igual ao meu. ��

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.