Nova Perspectiva

9 de novembro de 2015

Começo, meio e o nosso fim

Via reprodução
Oi, amor.

Como estão as coisas por aí?

Eu sempre me perco no começo das cartas, e às vezes me perco no final também. Da mesma forma que eu faço com a vida. É que cê sabe, eu gosto mesmo é da metade, do momento em que nada mais importa além daquilo que está no auge dos acontecimentos. Inícios são travados, estranhos, ouso até a dizer que estagnados demais pra alguém que vive no 220V, como eu. Nele não somos nós mesmos da mesma maneira que seríamos se não fosse o começo. Na metade não, no meio da história a gente não precisa mais se esconder em palavras ensaiadas e cuspidas à conta-gotas, nele nós podemos despejar sem medo tudo o que mora na ponta da língua. Inclusive os beijos. Estes mesmos que deixam uma saudade afiada no final, que apertam e esmagam o coração quando a outra boca já tá longe demais pra gente gritar pelo seu nome. Você não faz ideia de quantas vezes eu já perdi a voz chamando por você. Eu não gosto de começos, mas gostei menos ainda do nosso fim.

De vez em quando eu acho que te esqueci, deixo de te lembrar antes de dormir e esqueço do teu cheiro até que alguém me lembre o quanto eu te amava. Tentaram me convencer de que isso é só uma forma de escape pra que eu me force a recomeçar, que no fundo eu só estou me enganando com essa história de que não é mais você, porque sempre vai ser. Eu acho que isso é até que bem inspirador e eu podia escrever uns textos sobre o tema, poetizando as teorias que criam na ânsia de me fazer ignorar o óbvio, mas a verdade é que eu to crescendo, amor. E que no fundo, eu sei, nunca foi você. Nunca foi a gente. Ainda que tenhamos lutado muito pra que fosse. Ainda que tenhamos nos amado muito pra ser.

Os anos passam e acabado sendo forçados a aprender que não temos como comandar o mundo. Nem os caminhos em que nossas escolhas nos fazem cair. O fato é que apesar de tudo somos nós mesmos que escolhemos onde vamos parar, e com quem. Quando eu era pequena, formava casais com as minhas bonecas, inventava romances e personagens e no fim a Barbie e o Ken sempre acabavam juntos, não importava o quanto as amigas dela diziam que ia dar merda, não importava o quanto os amigos dele detestassem ela, não importava o quanto tentavam impedir que eles acabassem juntos. No final eles sempre tinham o tal do "foram felizes para sempre". E no dia seguinte eu fazia tudo de novo, outro roteiro, outros problemas, e o amor continuava vencendo. A gente vira gente grande e acaba descobrindo que na vida real o amor nem sempre basta. Pra dar certo é preciso mais.

Pra que uma história dure, nós precisamos nos entregar de corpo e alma, precisamos saber ceder de vez em quando, precisamos ser fortes, segurar na mão do outro e confiar independente do quanto o mundo conspire contra. Precisamos querer que a coisa aconteça, mas querer de verdade, com fé, devoção e esperança. Precisamos lutar, muito, e ir atrás sem joguinhos e estratégias. Precisamos saber viver a história por dois e não de maneira individualista. Precisamos entender que coração não é pose, relação não é domínio e que o feliz para sempre, às vezes, só dura um dia. No mundo de verdade, o amor é uma linha fina que arrebenta fácil, se for só ele segurando os dois lados, nenhuma história aguenta. Se a Barbie e o Ken fossem meus amigos e existissem nesse nosso universo, eu sei que já teria visto o fim daquela história, porque o Ken queria ter cinco filhos e a Barbie conhecer outras culturas, ela não foi criada pra morar em uma casa com quintal e cerquinha branca, isso era muito pequeno pra tudo o que ela esperava da vida. Ele gostava muito mais de praia e interior e calmaria enquanto ela preferia o caos da cidade grande, ele acreditava que o mundo cabe no nosso jardim e ela é que queria caber no mundo. Eles não tinham muito a ver. Igual a gente. E eles se amavam da forma mais sincera e crua. Igual a gente. E ainda assim eles não estariam mais juntos. Igual a gente.

Eu to te esquecendo, meio devagar porque eu sou apegada demais pra me livrar de tudo tão de repente. Ainda estou aprendendo a abrir mão do que não cabe mais. E to conseguindo, amor, e sei que isso não te assusta, sei que aí dentro você comemora porque sabe que nenhum de nós nasceu pra sofrer. Porque apesar de tudo, nós fomos felizes da nossa maneira e não tem motivo algum pra deixarmos de ser, ainda que em lugares diferentes. Ainda que com outros amores. Ainda que de um outro jeito daquele em perdemos algumas madrugadas planejando. A vida não é uma brincadeira de boneca, ainda bem, a Barbie é que não sabia o azar que tinha por não poder mudar de ideia.

Eu odiei o nosso começo e odiei o nosso final, e passei muito tempo desejando que os nossos capítulos do meio ganhassem alguns adendos, só pra que durássemos um pouco mais, até entender que, na verdade, tudo o que passamos foi só o meio da minha vida, eu to muito longe do fim e não preciso espantar cada nova história que bater na minha porta por medo de me perder no primeiro olá. Que eu me perca e me ache e me perca de novo. Ainda é a metade. E essa é melhor fase.

Fica tranquilo, que por aqui as coisas estão indo bem.

A gente se esbarra. Ou não.

2 comentários:

  1. Ola gabriela, ja a um tempo estou tentando entrar em contato com vc e nao consigo.
    E sobre Layout. Como faco para adquirir um com vc? Aguardo contato. bj
    Obs; Seu blog e lindo , estou viciada nesses textos que me fazem refletir e relembrar de algumas coisitas, rs.

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  2. Gente, que texto incrível. Verdade, as vezes é só uma história no meio da nossa história e devemos seguir viagem =/ Apesar de doer, faz parte.

    Beijos!

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.