Nova Perspectiva

9 de outubro de 2015

Vigília

Via reprodução
Enquanto encaro o teto escuro do quarto, esperando por algo que eu sei que não vai vir, me pergunto se você também tem dificuldade pra dormir, se também encara o relógio se perguntando quanto tempo ainda tem pra descansar — ou tentar. Agora, me resta pouco. Reviro na cama procurando por uma posição mais agradável, mas de nada adianta e retorno para a inicial. Queria saber se você também pensa muito antes de conseguir pegar no sono, se pensa ao ponto de manter a cabeça desperta enquanto o corpo clama por descanso. E se pensa em mim. Nessas noites em que a insônia brinda com o seu nome, só consigo lembrar da gente e das promessas vazias que sobraram. Penso se, talvez, ainda haja tempo de cumpri-las. Imagino que você também está se perguntando por isso. Quem sabe parado na mesma posição que eu, procurando no nada à resposta pra tudo. Olhando a imensidão sem cor do teto do seu quarto querendo saber se eu também estou tentando te achar ali, naquele breu desnorteante que aglutina o nosso sono e invade a alma dilacerando a ausência que o nosso “nós” trasborda. E eu to, penso o que você faria se eu te confessasse que te busco nos fios de luz que a janela cria na parede. Penso em você e em mim e no que a gente algum dia foi, sem conseguir impedir que a sua boca tome conta da minha visão. Penso se você ainda lembra do meu gosto. Do meu toque. Do meu beijo. Suspiro tentando controlar o desejo de te ter. Aqui. Agora.

Queria saber seu número, mesmo sem ter certeza se eu te ligaria. Você ainda deve ter o meu. Cê costumava guardar tudo em uma agenda de emergência, naquela época meu telefone estava lá. Talvez ainda esteja, mas você não vai me ligar. Nem se for urgente. Nem se eu for a última pessoa a quem pedir socorro. Mesmo que esteja pensando em mim enquanto a madrugada engole suas chances de pregar os olhos, mesmo que ainda pense na nossa história e em quanto tínhamos tudo pra dar certo. Você nunca vai admitir que, juntos, estragamos tudo, e talvez isso nem tenha tanta importância, sabe? Assumir que podíamos ter sido um desses amores de cinema não muda o fato de que já não somos mais coisa alguma. Nós ficamos no passado, ou pelo menos deveríamos ter ficado. Mas eu penso em você e penso se você também pensa em mim e se também rega a esperança de que ainda haja alguma coisa pra fazer. Não tem. Eu sei. Mas eu queria que tivesse. Por isso vago com os olhos pelos quatro cantos que estruturam meu quarto e busco por algo que eu gostaria que estivesse aqui. E indago se você também queria que eu estivesse aí.

No fundo eu sei que você também sente saudades, uma igual a minha, que dói na alma a ausência de um fantasma que permanece vivo dentro de nós. Uma saudade que fere e que arde e que grita a sua sobrevivência, apesar de todas as tentativas de a matarmos. Uma saudade que vocifera a nossa inutilidade diante os fatos que a vida nos impõe. Nosso final é um deles: objetivo e doloroso. Um fato tão claro quanto o nosso amor permanece sendo. Queria voltar no tempo pra tentar fazer diferente. Acredito que você também queira, ou, pelo menos, se pergunta de vez em quando se podíamos ter feito dar certo. Se podíamos ter dado em algum lugar. Podíamos, sim, mas não sei se teríamos, a verdade é que fizemos o que era preciso, mesmo destruindo um ao outro. Por isso sei, também, que não dá mais. Ficou muito tarde pra recomeçar. Ficamos estraçalhados demais pra correr o risco de acabar pior. Mesmo que eu só pense em você. Mesmo que você também pense em mim. Não é suficiente. Não somos suficientes. Talvez nunca tenhamos sido, por isso acabamos nos quebrando. 

Fazemos parte daquele grupo de amores que não saem da idealização no teto de um quarto. Que vivem e morrer na imensidão de algo que nunca chegou a acontecer. Não porque não queríamos, nós queremos, eu sei, é por não aguentarmos o peso de uma história como a nossa, um romance que aperta e sufoca e esmaga. E salva. Queria poder nos salvar de nós, eu sei que você também, mas somos tóxicos demais pra estar junto. Esse é o nosso maior problema: ruim longe, pior perto. A gente arrisca no que sangrar menos. Por isso eu não lembro do seu número. Por isso você não me liga no meio da noite dizendo que pensou em mim, mesmo quando pensa. Independente do tamanho do nosso amor, o estrago que causamos um no outro é muito maior. Então é melhor deixar assim. E eu me pergunto, antes que o sol apareça e eu me force a levantar, se você também pensa assim. Por um minuto, não chega a ser mais que isso, eu queria que não.

3 comentários:

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  2. Amo o jeito que você escreve e a maneira como me invade com tanta leveza, mesmo falando de situações pelas quais ninguém devia passar. É profundo, alarmante, mas um alívio pra alma. É bom saber que você está aí do outro lado pronta pra me entender sem que eu nem te diga nada, Gabi! hahah <3

    http://prazersaierrot.blogspot.com.br

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    1. Que comentário mais lindo, Fe. Obrigada pelo carinho 😘

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.