Nova Perspectiva

20 de outubro de 2015

Ninguém nasceu patinho feio

Via reprodução
Alise o cabelo! Emagreça! Fique loira! Não, pinte de ruivo! Use lente! Vá à academia! Fique sarada! Seja gostosa! Coma salada! Nada de doce! Pinte as unhas! Esconda as espinhas! Faça a sobrancelha! Se adeque! Você não vai assim, né!? Coloque um salto! Seja mais feminina! Arrume os dentes! Ninguém vai querer você desse jeito! Não seja baranga! Não seja feia! Encolha a barriga! Opere! Que nariz grande! Faça Botox! Lipo! Coloque silicone! Não seja você!

Talvez pareça radical demais começar um texto com tanta frase ruim, talvez pareça exagero dizer que somos obrigadas cem por cento do tempo à seguir um padrão inalcançável de beleza, talvez pareça sensacionalista esbravejar que querem nos moldar em um tipo de mulher perfeita, talvez pareça mimimi, bobagem, falta do que fazer. Mas não é. A verdade é que desde que nascemos somos bombardeados com imagens símbolos de perfeição, modelos que devemos seguir para nos adequarmos. Só que espera um pouco, quem disse que se adequar é o mais correto? Quem disse que é isso que nós queremos?

Uso óculos desde que nasci, precisei aprender na marra a lidar com o fato de não ter olhos azuis e sim duas lentes na minha cara. Ser diferente pareceu ser errado por um bom tempo. Lembro de não ter vontade de sair com as minhas amigas por achar elas bonitas demais perto de mim, ninguém me olharia se eu estivesse com elas. Acreditava fielmente que eu era o tal do patinho feio no meio de um monte de cisnes, eu me encolhia e fazia de tudo para não ser notada, afinal, o que tinha para ver em mim? O que tinha para ser notado em uma menina mais baixa que a média, de quadril e ossos largos, com hipermetropia e um pouco de estrabismo? Nada de bom, eu afirmava. A verdade é que eu não me enxergava de uma forma positiva, então tinha medo de ser vista do mesmo modo pelos outros.

Passei boa parte da minha adolescência me desmerecendo, acredito que é nessa fase que a maioria "fora do padrão" mais se maltrata. Eu me maltratava. Eu era o patinho feio. A mídia impunha um modelo que eu não podia alcançar, me faltava estatura, peso, olhos claros e uma visão perfeita. E ainda tinham as espinhas, ah essas malditas, me infernizaram por um longo tempo. O medo de ser julgada inferior fez com que eu me inferiorizasse e perdesse bons anos do que deviam ter sido os meus melhores anos, Eu mesma me cobrava ser algo que não tinha como e me castigava por não ser. Eu não era vista, não acreditava quando alguém apontava minha beleza. Bonita? Eu? Tá doido? Nem quando gostavam de mim. Não dava pra gostar de mim, eu era imperfeita. 

Hoje, olhando pra trás, eu vejo quanto tempo e quanta gente eu desperdicei por não me aceitar como eu era: um ser humano normal, com defeitos e qualidades, perfeições e imperfeições. Uma pessoa de muita carne, grandes ossos e armação nos olhos. Com a maturidade, passei a ver a vida de outra forma. Não foi o mundo que mudou o jeito de me notar, fui eu quem passei a me notar. Aprendi a gostar do reflexo no espelho, compreendi que eu não preciso ser um padrão, um modelo quadradinho igual as capas de revista mandam ser. Eu só sou eu, porque sou assim, caso contrário seria outra pessoa. E eu não quero ser ninguém além de quem eu já sou.

Descobri que quando passamos a nos ver com novos olhos, os outros começam a nos enxergar de um outro jeito também. Quando eu perdi o medo de ser vista, passei a ser notada. Quando eu desconstruí a figura do patinho feio escondido no meio de aves bonitas, eu me tornei uma delas. E nem precisei de cirurgia. A gente precisa amar o nosso reflexo no espelho, para que os outros possam amá-lo também. Posso afirmar, depois de uns bons anos, que a beleza vem de dentro e nesse caso eu nem falo apenas do caráter, eu falo daquela sensação de se sentir bela, de sentir bonita. Quando você se acha bonita, não tem quem não concorde. Beleza é mais do que a figura física, é a essência que a gente transmite, é cheiro, é postura, é confiança. Beleza é algo além de um rostinho perfeito ou um corpo bonito, é algo que a gente transmite de algum lugar lá de dentro de nós mesmos. 

Beleza é algo singular, por isso não dá pra pluralizar um padrão e esperar que o mundo seja igual. Sempre seremos diferentes, sempre terão as pessoas que se destoam do que se considera bonito, e é por não se encaixar que vai ter tanta beleza ali. É por ter algo além, que não se espera, que vai chamar tanta atenção. Ninguém nasce patinho feio, a vida nos faz engolir essa ideia de que o mundo se divide entre os que são bonitos e os que não são, mas isso é mentira, todo mundo é bonito se você parar pra observar direito, cada um tem a sua beleza, tem aquela coisinha especial que chama atenção e prende o olhar. Todo mundo é meio cisne. Você só tem que deixar o seu aflorar.

3 comentários:

  1. É tão triste ter que perder anos da nossa vida para chegar até o amor próprio. Eu me amo. Mas as vezes, fica dificl com tanta imposição. Seu texto foi ótimo! Parabéns!

    www.garotaveneta.com

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    1. É sim, separar o que a sociedade grita que a gente deve ser, do que a gente realmente é (e devemos ser) requer muita maturidade. Não no sentido de idade, mas no de vivencia.

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  2. Eu sempre me senti normal, não feia. Sou magrela, olho escuro, cabelo escuro, cegueta, branquelíssima, com a orelha mais aberta do que deveria. Nunca me achei bonita. Quando alguém queria ficar comigo eu pensava "essa pessoa tá louca, só pode". Sempre quis ser outra pessoa. Com uns 18 anos comecei a desencanar disso, comecei a me ver diferente. Comecei a achar a minha cor de pele bonita, minha magreza ok e parei de usar óculos pequeno tentando esconder, mas tive que passar pela adolescência me achando meio estranha.
    É triste ver que quase toda adolescente se acha assim, meio estranha, patinho feio. Tô esperando o dia que não vamos mais ter que seguir um esteriótipo. Quem sabe daqui uns 100 anos.
    Amei o texto.

    laiszampieri.com

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.