Nova Perspectiva

11 de outubro de 2015

Eu sinto saudades e isso é tudo

Via reprodução
Sinto sua falta! Desse jeito, exclamado e desesperado, como um grito de socorro no meio da madrugada. Um grito que implora pra que você volte, sem rodeio, sem enfeite, sem enrolação. Um grito de um coração desesperado que não sabe como remontar os pedaços que sobraram. Um grito mudo no meio da imensidão do que sobrou de nós. Um grito agudo, triste, doído, que reproduz os ecos que vagam pelo meu peito desde que você resolveu sair daqui de dentro. Sinto sua falta, simples assim, e não é só uma vontade passageira de algo que foi bom e deixou de ser, é a ausência do que transbordava a minha alma, é a imensidão vaga de tudo o que não vamos mais ser. É o vácuo que se formou entre tudo o que a gente projetava fazer e o que viramos.

Quando você foi fugiu da história que estávamos criando, não levou apenas meus discos de vinil e a coleção importada de taças de vinho, contigo foi, também, um pouco de mim. Você carregou na sua bagagem as nossas promessas, aquelas feitas entre um beijo e outro no meio do chão da sala, regadas com juras de um amor eterno. Eu fiquei esperando pelo nosso pra sempre, um rascunho todo elaborado que não vai chegar a ser concretizado. Fui esquecida no meio das tralhas e das coisas velhas porque eu já não servia mais para o que você esperava do futuro e paralisei em um passado contínuo que impede o dia de se pôr. Sou um eterno ontem que não se encaixa mais no seu amanhã. Nem no meu. Sou a sobra que ficou de um furacão emocional. E eu sinto a sua falta. Sinto seu cheiro e o gosto de tabaco com menta que tinha a sua boca. Sinto a pressão dos seus dedos segurando o meu corpo e o seu sussurro baixinho na minha orelha. Sinto falta dos dias em que você transformava o inverno em primavera e trazia cor pros meus dias nublados. Sinto falta de quando havia cor. Agora tá frio e escuro e feio e dói. E eu sinto a sua falta.

Sinto sua falta incontrolavelmente, de um jeito que esmaga cada pedaço do meu corpo. Eu olho pro vazio do meu lado e respiro a ausência do seu perfume vagabundo impregnado no lençol do quarto, encaro a oquidão que virou o guarda-roupa depois que suas roupas foram embora e me dou conta de que o apartamento ficou grande demais pra minha solidão. Eu queria que você estivesse aqui, agora, queria teu corpo no meu lutando por espaço no sofá. Queria a tua cerveja barata esparramada pela casa e o cheiro da pipoca queimando enquanto a gente se perdia um no outro. Eu sinto a sua falta e engulo seco a vontade de te ligar, porque eu sei que, apesar de tudo, não dá mais. Não se salva uma relação em que só um gostaria de estar. Não se vive uma relação em que só um gostaria de estar. E é por isso que eu sinto a sua falta, e choro, e sofro, mas aceito sua partida, por mais dolorida que ela seja, por mais angustiante que não te ter pareça, se for pra alguém ficar, tem que ser porque quer, com pena não se alimenta amor nenhum. Sinto sua falta, e no momento isso é tudo o que eu consigo, mas aqui, no fundo, eu sei que vai passar, sempre passa. Daqui um tempo, tenho certeza, a falta que machuca vai ser uma falta bonita, de uma história que acabou de ser escrita antes que se encerrassem as folhas, meio prematuramente, mas que viveu o que tinha de viver. Vivemos. Sinto sua falta, e essa é a única parte ruim.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.