Nova Perspectiva

10 de outubro de 2015

Então você volta

Via reprodução
De vez em quando eu me pergunto, como é que você descobre quando tudo está voltando para o lugar? Como é que você consegue saber o momento exato em que a minha vida desatola dessa lama em que o nosso fim me deixou e começa a andar pra frente? Sempre que o mundo começa a conspirar a favor, e as coisas começam a se encaixar, você volta balançando a estrutura que eu jurava ter deixado forte. É como se você pressentisse que algo está mudando, que algo não está como você deixou, então reaparece pra colocar tudo no mesmo lugar, e aqui está novamente a estante empilhada com as suas desculpas ensaiadas e o armário abarrotado com o vazio esquecido pela sua ausência. Mais uma vez a casa volta a estar coberta com o seu cheiro, e com a sua falta, e com a minha dor. E eu não tenho o que fazer.

Indago se, no fundo, eu também não tenho culpa, porque quando você dispara a campainha de casa como se gritasse por socorro, eu abro a porta e te deixo entrar, mesmo sabendo o risco que eu corro ao te colocar pra dentro depois de conseguir me esvaziar da nossa história. Mesmo sabendo que você não vai ficar. Eu te ofereço um café, uma água e a minha boca, e você aceita os três, não necessariamente nessa mesma ordem. Brinca com os meus lábios com a mesma intensidade que brinca com o meu coração. E dói. Porque eu conheço seu jogo e seus passos e suas trapaças e sei que no final eu sempre perco. Sussurra promessas da boca pra fora no pé do meu ouvido quando eu tento te fazer sair de mim, e eu me desfaço em seu abraço, tentando não querer o tanto que eu te quero. É esquizofrênico, mas apesar de tudo, eu preciso acreditar no que eu sei que é mentira pra continuar sobrevivendo. Eu me forço a ceder, porque a fúria com que o meu coração deseja o seu é maior que as consequências que virão quando você for embora.

E você vai, porque é assim que as coisas são, é assim que você é. Você vai e me deixa transformada em pequenos caquinhos que eu colo ao mesmo tempo que juro que essa foi a última vez, porque eu mereço coisa melhor e consigo cara melhor e sou melhor demais pra ficar com o seu pior. Mas eu sei que não importa. Por mais que aperte, que doa, que sangre, meu corpo ainda implora pelo seu. Minha boca ainda implora pela sua. Meu peito ainda clama pelo seu. Mesmo quando o teu cheiro vai embora, mesmo quando a tua falta fica pequena e suportável. Mesmo quando eu posso seguir em frente. Ainda é você quando a insônia pula a janela e eu não preciso fingir que já te esqueci. Eu só te lembro, rapaz, e me lembro que você volta. Não sei quando, mas dia desses, no meio de uma dessas noites chuvosas, você vai bater aqui em casa e pedir pra passar a noite no calor dos meus braços e eu vou te deixar entrar enquanto desejo em silêncio que você fique a vida toda.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.