Nova Perspectiva

15 de outubro de 2015

Ele não soube lidar com muito

via reprodução
Sabe, menina, eu queria que você entendesse que o problema nunca foi você. Eu sei que isso parece frase ensaiada de fim de relacionamento e que é meio ridículo de ser dito por alguém que mal te conhece, mas, presta só um pouquinho de atenção em mim, essa tua história eu já sei de cor e salteado. Recito de trás pra frente, se você quiser. Teve uma época, e nem faz tanto tempo assim, que quem encenava esse personagem principal era eu. E doía, do jeito que dói em você, e eu me culpava, do jeito que você se culpa, e chorava porque eu também achava que não tinha o que fazer e que o meu mundo tinha acabado pra sempre. Mas eu me enganei, menina, a gente sempre pode fazer alguma coisa.

Deixa eu entrar na tua cabeça e fazer você entender que por mais que a gente se doe de corpo e alma para alguém, nunca vamos conseguir garantir que o outro vai se entregar também e isso não é responsabilidade nossa. Nem todo mundo tem coragem de pular desse precipício que é o amor, nem todo mundo consegue lidar com o peso de sentir algo tão grande, mas quem perde de verdade não é quem salta sozinho, e sim quem desiste antes de conseguir chegar no topo. E mesmo que agora tenha uma cratera imensa dentro do seu peito e que isso esteja te impedindo de ver o lado bom de despencar sozinha, uma hora ou outra você cicatriza e então vai enxergar que o que importa é a lição que se tira com o tombo. Porque a gente cai e se escangalha no chão, mas o nosso saldo continua positivo. No final, você vai descobrir que o amor, mesmo quando machuca, é melhor que o vazio que existia dentro dele.

Eu entendo que agora esteja difícil de perceber que ele acabou pior que você, porque a gente sustenta uma ideia de que só quem chora sofre. E nessa linha, quem sofreu foi você. Enquanto cê devorava potes de sorvete de chocolate e pacotes de salgadinhos de queijo, ele postava fotos e mais fotos em baladas com pessoas que você nem sequer conhece. No fundo, nem ele você conhecia. E isso te fazia chorar ainda mais. Eu sei como é triste sentir pena de si mesma e achar que fez tudo do jeito errado, afinal, quem mandou acreditar naquele discursinho pronto de cara que nitidamente não presta? Quem mandou cair na lábia de conquistador barato e acreditar que o sapo tinha virado príncipe? Quem mandou se deixar levar por aquela fala mansa de quem jura que largou o mundo pra viver ao lado do grande amor? Quem mandou você confiar? Se entregar? Amar? Eu sei como é não ter as respostas pra nada disso e se estraçalhar ainda mais pensando em como podia ter feito tudo diferente. Mas, daqui um tempo, você vai entender que não tinha como ter sido de um outro jeito.

Algumas coisas acontecem porque tem que acontecer, você saiu ferida e com uma bagagem pesada de uma história em que você apostou todas as suas fichas e ficou falida. Isso queima fundo dentro da gente e faz com que tenhamos vontade de sair correndo pra ver se para de arder. A gente ensaia ligações, discursos, brigas e chora ouvindo músicas breguissima na rádio. E vamos sofrendo até que a ferida vai diminuindo, diminuindo, diminuindo e vira só uma marquinha de aviso: na próxima, se joga de novo. A bagagem pesada vai virar sustentação pro amadurecimento que surge depois de um tombo desses. É na dor que aprendemos a nos curar, escuta o que eu to falando, no final disso tudo você ainda vai perceber que nem queria tanto assim que fosse ele, e que não precisa ser mais ninguém se ainda for você. É nos hematomas que se escondem as nossas histórias, quem não os carrega, foi só sobrevivente na terra.

Ele, em contrapartida, saiu com a vitória no bolso e mais um coração partido pra lista de conquistas baratas. Saiu com pose de macho alfa, cabeça erguida e peito estufado atrás da próxima vítima. Foi embora mentindo pro mundo o que não consegue mentir pra si mesmo: é infeliz. Os medrosos normalmente são. E o medo dele é o de se entregar, de deixar a armadura de homem independente ceder por um coração acelerado. Por isso ele espreme os músculos na camiseta apertada e aparece cada dia com uma garota diferente. Ele tem pânico de acabar apegado. Por isso foi embora como um moleque assustado, que não sabe direito o que está fazendo, mas sabe que precisa ir embora antes que dê merda. E a merda, menina, era você. Ele não tinha como aguentar, cê era muito mais do que ele podia lidar, entende? Ele é o tipo de cara que não sabe lidar com muito, porque o muito pode ser suficiente pra que ele queira ficar.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.