Nova Perspectiva

8 de outubro de 2015

Antes que eu me esqueça

Via reprodução 
Você foi embora no meio da noite, enquanto o mundo dormia, e eu também. Fez de tudo pra que eu não percebesse que estava sendo deixada de lado, saiu escondido, feito fugitivo, como se estivesse preso em uma prisão emocional, como se eu, em algum momento, tivesse te obrigado a ficar comigo. Pegou toda a sua bagagem de mansinho, foi andando na ponta dos pés, pra que eu não te ouvisse sair de mim, e eu estava tão surda que não consegui me atentar ao óbvio: você já sabia que ia embora desde o instante que chegou. Encenou perfeitamente o bom moço, fez com que eu fosse ao céu cheia de planos e boas intenções e um projeto de vida pra nós dois e depois soltou da minha mão, pra que eu despencasse sozinha. Nem sequer enviou um aviso prévio alertando sobre o precipício em que você me jogaria, nem deixou que eu me preparasse pro vazio que ficaria na minha alma. Foi embora da maneira mais egoísta que encontrou, não se preocupou com nada além dos gritos que eu daria se soubesse que estava ficando pra trás. Você só se importou com o quanto eu poderia chorar e te implorar pra ficar e chamar a atenção desnecessária dos vizinhos. Só se importou com a sua pressa em sair correndo sem olhar para o que estava ficando. E me deixou aqui.

Antes que eu me esqueça, você foi embora e não permitiu que eu falasse tudo o que eu tinha engolido durante todo o tempo em que você ocupou o meu espaço dentro de mim mesma. Não deixou que eu desabasse no chão da sala dizendo um punhado de coisas que você deveria ouvir. Você achou que dessa maneira seria mais fácil pra se livrar de toda culpa por não ter sido sincero com a gente. Se enganou. Eu não vou carregar nos ombros um fracasso que não é meu, é seu. Quando eu acordei gritando pelo seu nome e recebi de volta o eco seco da minha voz, me dei conta de onde eu tinha me enfiado. Meu único erro na nossa história foi ter me doado inteira pra quem não merecia receber nem metade, os outros ficam por sua conta. 

Não que tenha sido fácil engolir de uma vez só o que estava estampado esse tempo todo na minha cara e eu não conseguia ver, mas eu estava engasgada e precisava fazer alguma coisa. Não que não tenha doído. Toda queda dói. Doeu abrir o armário e não encontrar suas roupas com cheiro de perfume barato. Doeu olhar pra estante e enxergar o vazio dos seus discos de vinil. Doeu a falta dos fios do seu vídeo game estragando a decoração da sala. Doeu ter encenado a idiota apaixonada. Mas tudo bem, porque era isso que eu estava: apaixonada, ao ponto de ficar cega pra todas as suas armadilhas, capaz de abrir mão de mim pra ter mais espaço pra você. Eu tava apaixonada o suficiente pra engolir todas as suas desculpas e acreditar no seu joguinho. Eu perdi, as partidas e a guerra, mas ao contrário do que cê pensa, eu tenho orgulho disso. Nunca gostei de jogar com o coração.

Antes que eu me esqueça, quero que você saiba que eu te agradeço por ter saído da minha vida de maneira tão covarde, se não fosse isso eu jamais perceberia que quem estava perdendo alguém não era eu, porque você nunca foi meu. Quem perdeu um grande amor foi você. Eu só perdi o meu papel nessa peça que você dirigiu friamente. Antes que eu me esqueça, quero que você saiba que ir embora foi a única coisa certa que você fez. Sem ter que lidar com a sua ausência eu jamais me daria conta de que a sua falta não faz falta. Que o vazio das coisas que você levou embora é só um espaço novo pra coisas boas entrarem. É só a chance de ser feliz de verdade. Antes que eu me esqueça, você esqueceu de colocar na mala a sua coleção de desculpas ensaiadas, deixou pra trás um pacote de mentiras sinceras, sinto muito, mas já dizia Cazuza, elas não me interessam. Nem você.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.