Nova Perspectiva

30 de setembro de 2015

Só preciso chorar um pouco

Via reprodução
Respiro fundo e conto até dez na esperança de que isso seja o suficiente para espantar a chuva que começa a brotar dentro de mim. Encaro a paisagem cinza do lado de fora da janela do ônibus e lembro da gente colorindo essas ruas com o que eu achava que era amor, enquanto luto pra esquecer o que, inevitavelmente, não sai da minha cabeça. Eu sinto sua falta, e ela me consome um pouco mais a cada instante que você não está aqui. Dói um aperto forte no canto esquerdo do peito e eu tento evitar que as lágrimas rolem. Mas elas vêm, com calma, tímidas, silenciosas, feito garoinha. Vão caindo enquanto eu me seguro pra não despencar também. Faz meses que eu engulo o choro numa tentativa desvairada de que isso seja o suficiente pra me tornar mais forte. Eu não queria ser frágil, amor, mas me tornei tão vulnerável desde que você partiu.

Eu já fui bem mais segura, moreno, teve uma época em que eu fui dona de tudo o que eu sentia, tinha um autocontrole invejável, sabe? Era independente desses amores que quase não duram todo o verão. A gente não durou. Eu já me bastei de monte, moreno, e já fui bem mais feliz, também. E pra mim, é difícil admitir que eu perdi o comando do que vive dentro de mim. Não te pedi pra entrar nenhuma das vezes em que você bateu aqui em casa desesperado por um lugar pra passar a noite, ou a vida, não te pedi pra disparar a minha campainha durante uma madrugada chuvosa com um buque de flores e um vinho barato. Não te pedi pra que fosse eu, ou pra que fosse você. Nem pra que fosse a gente. Não te pedi um dia inteiro e nem a vida toda. Não pedi seu tempo e não te ofereci o meu. Não te pedi pra deitar no meu sofá e me aninhar no seu colo. Não te pedi pra preparar café da manhã, colocar sua escova do lado da minha e seu sobrenome no meu. Não te pedi pra me fazer te amar. Isso tudo, você fez porque eu quis. A única coisa que eu te pedi, foi pra ficar, e essa é a única coisa que cê não foi capaz de fazer.

Sinto alguns olhares cravarem em mim com um semblante de pena enquanto eu choro uma tempestade do tamanho da Amazônia. A garoa virou chuva de verão e tem um punhado de estranhos tentando entender o que aconteceu pra me fazer sofrer assim. E eu só queria que isso me incomodasse mais. Teve um tempo em que nada podia ser pior do que ser digna de dó. Hoje, eu sinto mais por não poder te ter. Eu tentei impedir que a dor saísse desse jeito, descontrolada, fui acumulando a tristeza de todos os machucados que a sua partida me causou, até que eu engasguei. E não importa o quanto de gente esteja me olhando, não importa o quão patético isso pareça ser, e seja, não importa nenhuma outra coisa além do fato de que não é mais você. Nem vai ser. Por isso eu choro, preciso colocar pra fora todo esse amor que eu ainda guardo em mim. Eu preciso vomitar, ainda que seja pelos olhos, todo resquício que ficou de você aqui dentro. Eu preciso chorar você, moreno, até ver essa história estancar. Dizem que depois de todo temporal vem um dia bonito, por isso eu esvazio o peito deixando as lágrimas protagonizarem esse espetáculo digno de piedade alheia, quem sabe, desse jeito, o meu novo dia possa, finalmente, raiar em mim.

2 comentários:

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.