Nova Perspectiva

9 de setembro de 2015

Se não tivesse inventado tanto

Via reprodução
Enquanto ensaio o começo de mais um texto sobre nós dois, o som do rádio dispara uma música que em algum momento da vida já foi nossa "Se a gente não fizesse tudo tão depressa, se a gente não dissesse tudo tão depressa... " é mais uma dessas coincidências malditas que fazem a gente querer acreditar que o destino quer que terminemos juntos. Sinto o olho pesar com as lágrimas que se formam e finjo não notar que elas estão ali, desesperadas para escorrerem e colocarem abaixo toda a proteção que eu havia criado contra a nossa história. Sinto a saudades esbofetear a minha porta desmoronando todos os alicerces que eu vinha construindo pra não ruir pensando em você, moreno. Depois de bater tantas vezes no peito afirmando que você era peça do passado e que eu estava, finalmente, curada, volto a procurar desculpas para te ligar. Será que seu número é o mesmo?

Indago se, talvez, eu não devesse tentar, o que perdemos correndo atrás do que a gente quer? O que eu perderia se tentasse, de novo? Eu queria você, muito, incontrolavelmente, mesmo negando de todas as formas possíveis e tentando fingir pro mundo e pra mim que estava tudo bem. Não estava, moreno, porque eu ainda te amava. Procuro pelo seu número na agenda do celular, mesmo o sabendo de cor, assim eu posso ganhar alguns segundos para conter o impulso e ter certeza do que fazer. Mas que mal teria de arriscar? Afinal, a vida estava dando sinais de que precisávamos estar juntos, tinha a música, o texto, o frio, a saudades e já é quase novembro, moreno, já é quase o nosso mês. Respiro fundo. Não pode ser só coincidência, não é, eu sei, eu sinto.

Respiro fundo procurando por alguma razão pra uma ligação no meio da tarde de um domingo chuvoso, posso falar que apertei seu nome pensando ser de outra pessoa, ou eu finjo não reconhecer sua voz só para parecer indiferente e justifico afirmando que não sabia quem era, talvez nos breves segundos que separam o até breve da surdez do outro lado, você me confesse em um tom melancólico que está solteiro, então a ligação continue um pouco mais e marquemos um café qualquer dia desses só pra jogar um papo fora e a nossa boca um no outro. Seguro o telefone e disco seu número, aguardo a chamada com o coração preso na garganta, toca, toca, toca e nada, tento novamente, o número chamado não existe, desligo. Droga. 

Não é a primeira vez que isso acontece, não é a primeira vez que te busco e não te acho mesmo com o universo conspirando a favor. Por que ele está, não tá? Ele grita que fomos feitos um para o outro e que eu preciso te provar isso, não é? Ele me faz lembrar que eu ainda não te esqueci, só pra que eu não esqueça que o nosso amor é um desses impossíveis que precisam doer muito pra dar certo no final, né? E eu choro enquanto a música termina porque eu sei que não. Amor que machuca não é amor, amor unilateral é esquizofrênico, não rola, não desce, não dá. O nosso barco tá furado e não importa quanto tempo eu dedique para colocar a água pra fora, ela sempre vai entrar de novo, até que eu vou cansar que de encher o balde com as suas indiferenças e afundar agarrada em uma história que eu sempre vivi sozinha. Observo o celular com o seu nome brilhando no meio da tela, o número chamado não existe, nem a gente.

“podia ter vivido um amor grande hotel”
* música Grand'Hotel

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.