Nova Perspectiva

13 de setembro de 2015

Pra você, que quase foi tudo

Via reprodução
Oi, moreno, como vai você?

Faz tempo que não te escrevo, eu sei, mas é que estão sendo raras as cartas que chegam ao final, cada dia fica mais difícil de te escrever. E de escrever sobre você, também. Mas tudo bem, moreno, no fundo não é tão ruim assim, é só um sinal de que eu to crescendo, de verdade, agora. Minha vida ganhou outras inspirações, assim, desse jeito, no plural, e eu fui uma delas. Tem notado o quanto de amor próprio vêm transbordado das minhas linhas? Eu sei que você me lê, moreno, só não sei o porquê. Isso eu nunca soube, mas é outra das coisas que não importam mais. Infelizmente.

Dia desses fui fazer café, a casa estava quieta demais e eu resolvi colocar uma playlist antiga salva no computador, desde que descobri o Spotify não ouço mais por lá, então tocou a nossa música. Anos atrás isso teria sido como um soco na boca do meu estômago, me faria largar tudo e chorar até o fim do dia com o peito apertado, não foram poucas as tardes em que molhei meus travesseiros por você. Hoje foi só uma cóceguinhas perto do umbigo, dessas que dão um pouco de saudades e passam rápido. Eu lembrei da gente, moreno, e nem doeu. Engraçado, não é? De repente o meu maior machucado cicatrizou e se transformou em uma marquinha, que existe só pra me lembrar que não vale a pena se doar demais pra quem só sabe fazer doer.

Depois eu fui ler alguns textos antigos, uma maneira inconscientemente masoquista de tentar recuperar a pontinha da corda que ainda me prendia em você, e eu só consegui sentir pena de mim. Coitadinha, eu era tão iludida, moreno, e te amava tanto. Mas era tanto, tanto, tanto, que eu me pergunto como é que eu pude gastar um sentimento tão bonito com alguém como você? Como eu pude ficar cega por tanto tempo? Que desperdício você me fez fazer, moreno. Eu perdi tanto cara legal, me perdi um pouco, também, e deixei de me jogar em muito precipício porque eu só queria se fosse com a sua mão na minha. Logo eu, que sempre gostei de queda livre.

Olhando pra trás, nessa guerra de ego, ilusão e paixão, você perdeu bem mais que eu. Minhas armas eram de verdade, meu jogo era limpo, já você trapaceou, usou, brincou. Talvez, nas contas mais exatas, cê até tenha levado algumas batalhas a mais, e tudo bem cê ter saído dessa história com a sensação de vitória, mas olha pra gente agora, moreno, de alguma forma eu sei que estou melhor do que você. Como? Intuição, a mesma que sempre esfregou na minha cara que a gente não ia dar certo, e não demos. Eu queria que tivéssemos dado, de verdade, mas isso não quer dizer que eu ainda te ame, só que nós teríamos sido um casal bonito, da nossa forma a gente se dava bem, o nosso lance fluía de um jeito gostoso, e tínhamos uma química fora do comum, da minha parte tinha muito mais, esse foi o nosso primeiro problema, não é? Eu deixei a merda toda virar amor e você fingiu que tava virando também, até que me deu as costas. Esse foi o nosso segundo problema: você se apaixonou, só que não foi por mim. E eu te odiei, e odiei ela, e odiei o mundo por ser tão sacana comigo. Eu merecia muito mais, po, o que é que ela tinha feito por você? Eu tinha tentado de tudo, não era justo acabar assim. Tem gente que demora semanas pra superar uma perda, eu levei uma vida, mas deu tempo de sobreviver aos 45 do segundo tempo. E eu to aqui. E não quero que a gente de certo. Entende, moreno? Porquê tá tão difícil de te escrever; eu não tenho mais nada pra te falar, nem quero ter.

Eu engoli o nosso final e vomitei tudo o que eu sentia e ficou só uma lembrança bonita de uma história que podia ter sido a maior da minha vida, mas não foi, só ficou a saudade de um cara que quase foi tudo, mas quase não é nada. A gente não foi nada, moreno, porque a gente foi quase o tempo todo. E agora nem isso me acelera mais, fazer o que? Paciência. Todo amor acaba, hoje eu sei. Por isso vim te falar adeus, um adeus atrasado, suado, exausto e necessário. Não que eu não vá te escrever mais, eu vou, mas não vai ser sobre você, vai ser sobre quem eu queria que cê tivesse sido e já não dá mais.

Boa sorte, que eu já to tendo. Pode ser que a gente se esbarre, mas eu vou fingir que não te vi, então finge também, prefiro assim. Não é rancor, juro, nem raiva ou dor de cotovelo, eu só to me protegendo do veneno que quase me matou. Você.

Um comentário:

  1. Eu ainda amo tanto escrever cartas que não sei como lidar com a vontade de entregá-las para os caras de hoje em dia.
    Parece que me sentirei uma moleca de 15 anos.
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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.