Nova Perspectiva

23 de setembro de 2015

Eu só queria que fosse você

via reprodução
Eu queria muito que fosse você, sabe? O cara com quem eu construiria o meu futuro, e era com isso que eu regava as minhas noites de insônia. Foram madrugadas perdidas sonhando acordada com o que a gente viveria, eu projetava a nossa história enquanto o relógio rodava do lado da cama, ali, enquanto o dia não aparecia, eu nos via de mãos dadas aguardado a chegada do primeiro filho e, quando isso se tornava cansativo demais, eu nos encontrava em um balanço no meio do campo após a terceira idade bater na porta de casa. Em segredo eu cultivava a esperança de que os nossos caminhos não tinham se cruzado por acaso, não podia ter sido. Entende? Existia algo entre a gente que me fazia torcer pra que seja lá o que fosse aquilo que acontecia entre nós dois, não fosse só uma coincidência sem importância. Eu me enganava flertando com o destino e torcendo para as histórias de amor terem um fundo de verdade. Só um fundinho que fosse suficiente pra fazer o nosso amor ter um final feliz, igual nos livros de romance. Eu queria que você fosse a metade da minha laranja, por mais patético que isso possa parecer, eu desejava que o cara certo fosse você, mesmo cê sendo todo errado.

Estava na cara que aquilo não acabaria bem. Não tinha como acabar. Mas eu fazia de tudo pra conseguir mudar o nosso final. Eu aceitei o seu jeito durão de encarar mundo do lado de fora de casa, sua fala sempre contida e baixa, ouvida só quando era essencial, a mania de sorrir sem mostrar os dentes, como se extravasar a felicidade fosse um crime grande, dos bravos, com pena de morte e tudo mais. Também aprendi a torcer pelo seu time, vestia a camisa e assistia aos jogos do seu lado com os olhos grudados na tela torcendo como uma dessas fanáticas, era o jeito mais fácil do seu olhar pousar em mim com mais carinho do que o normal. Repito: carinho. Comecei a comer japonês, mesmo odiando peixes e algas e frutos do mar, pois eram de lá os seus pratos favoritos e eles te arrancavam uma amenidade rara, dessas que eu nunca consegui te dar. Passei, também, a adoçar o meu café, desse jeito ficava mais fácil lidar com a sua amargura. E te amei. Muito. Mais do que o meu coração podia aguentar, mais do que eu podia suportar. Te amei com toda a minha força, como se o mundo fosse acabar amanhã e eu precisasse preencher cada pedaço de mim com você. Te amei, da forma mais inocente à mais carnal. Da maneira mais singela ao modo mais intenso. Te amei de todos os jeitos e ângulos e poses. Te amei por mais improvável que isso pudesse soar, mesmo você tendo nascido com o prazo de validade vencido e sendo um tanto tóxico pra quem te provava. Eu te amei até morrer envenenada, não em corpo, mas de alma. Te amei e adoeci com esse amor, adoeci feio, cai de cama com febre alta, tontura e coração partido.

Eu padecia e você me olhava piedoso, como se não soubesse que era a minha cura e a minha doença. Mas sabia. Você sempre soube, desde o começo, assim que nossos olhos esbarraram e a gente se achou um no outro. Não houve surpresa em nenhum momento em que você me viu minguar por um amor mal correspondido. Você podia ter ficado e me salvado da angustia que era não te ter pra mim, mesmo tendo o seu amor, porque eu sei, no fundo eu sei, que você também me amou. Mas o amor que vivia dentro de você não era suficiente nem para que você se resgatasse da morte mental em que tinha se enterrado, quanto mais pra dividir comigo. Você não me salvou, porque precisava de mais ajudo que eu, hoje eu entendo. Mas, naquela época não, por isso eu não aceitei abrir os olhos e não te ver, gritava pro quarto vazio a mágoa que transbordava de mim. E a raiva. E a dor. Muita dor. Doía como se tudo ao meu redor estivesse desmoronando em cima de mim e me esmagando até que não sobrasse nada. A sua ausência me esmagava. Eu não conseguia respirar, não conseguia voltar pra superfície desse mar enlameado da fossa em que você tinha me largado, eu não conseguia nadar conta a correnteza que me afundava cada vez mais nos ecos que o meu corpo fazia sem o seu. E eu só queria que fosse você. Não conseguia acreditar que não era. Não conseguia aceitar que não era. Depois de todos esses anos, depois de todos os nossos beijos, depois de tantas promessas e de tantos planos, você não tinha o direito de ir. Mas foi. Fez a única coisa certa, o que desde o início devia ter sido feito. Você foi embora porque não podia me salvar, nem se salvar, nem nos salvar. Éramos caso perdido. O melhor caso. Perdido. Sem você eu me salvei. Foi preciso. Levantar, me reerguer, recomeçar. Eu consegui, pouco a pouco, dia após dia, eu fui reunindo tijolo por tijolo e me montando de novo. Voltei a ser inteira, a odiar futebol, comida japonesa e café com açúcar. E mesmo assim eu só queria que fosse você.

2 comentários:

  1. Lindo texto!! Acho que muita gente se identifica com ele de alguma forma, ou de todas as formas, rs.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.