Nova Perspectiva

7 de setembro de 2015

Boa noite

Via reprodução
O café aquece no fogo e eu me pergunto o que é que eu to fazendo comigo? São mais de três horas da manhã, eu devia estar dormindo porque amanhã é segunda-feira e tem uma porrada de coisas para eu entregar, mas estou aqui, enrolando a noite e alimentando minha insônia com uma xícara de cafeína amarga. Eu preciso dormir, eu sei, eu sinto, meu corpo clama por descanso do mesmo modo que a minha mente esbraveja para que eu desligue, pelo menos um pouco. Pelo menos até eu estar pronta pra encarar de frente toda essa bagunça sem desmoronar na primeira barreira, ou me ludibriar criando uma pra que eu possa desmoronar. Não me falta consciência do buraco no qual estou me enfiando, tenho plena noção do caminho que optei, sei que to batendo com a cabeça na parede e vou sair pior do que eu estava, mas eu não tenho força, sabe? Pra levantar e reerguer todo o peso da minha coluna, a verdade é que eu to fraca demais pra lutar contra o que eu sinto.

Analiso o líquido dentro da xícara e volto a encarar o céu azul anil, numa dessas noites em que as estrelas iluminam a cidade você me prometeu que a gente ia dar certo, mesmo que demorasse uma vida, mesmo que já fôssemos grisalhos e ostentássemos dentaduras no lugar da dentição original. Cê me olhou, sorriu, pegou duas taças de vinho e ligou um blues bem baixinho, depois segurou com força a minha mão e disse que não importava como, nem porquê, ou quando, a vida nos uniria novamente, porque a gente era pra ser. Era. Suspiro profundamente buscando na memória o som da sua voz dizendo que me amava, me pergunto se realmente havia amor da sua parte, da minha ainda há, mesmo que eu me recuse a aceitar, e eu nunca precisei falar nada, você sabia, todo mundo sabia, que meu coração só tinha espaço pra você. Talvez tenha sido justamente esse o meu erro, eu deixei que você virasse tudo e cê não merecia. Você não merecia ser nada.

Depois de uns meses foi recolhendo todos os nossos planos e enfiando em um saco de lixo, como se eles não passassem de um supérfluo que a gente compra e cansa de usar. Cê cansou da gente e não se importou com o quanto isso podia me arrebentar, foi saindo junto com seus jogos de vídeo game e a escova de dente, e um adeus surrado de quem suplica em silêncio um pelo amor de Deus não vem atrás de mim. E eu não fui, nem podia, você me deixou destruída demais pra conseguir fazer alguma coisa além de aceitar. Esperei pelas suas ligações, por um buquê de flores, pela campainha disparada no meio de uma noite em que o frio fosse insuportável sem o meu corpo colado ao seu ou uma mensagem falando que estava arrependido. Mas não veio nada. Você tinha ido embora, e por mais doente que parecesse, eu queria te esperar, é que aqui no fundo do peito eu acreditava que em algum momento das nossas vidas ainda daríamos certo.

Tola. Observo o silêncio que o apartamento vazio faz, parece tudo maior sem ter com quem dividir. Isso assusta um pouco. A gente não vai ser mais nada, já fomos tudo o que podíamos. A verdade é que já tinha dado errado, a partir do momento em que você decidiu recolher suas roupas e cair fora, ali, a nossa história acabou. Eu só não conseguia aceitar, me forçava a acreditar que você tinha razão e que a vida nos uniria novamente porque o nosso amor era maior do que qualquer adversidade que a vida criasse, mas não existia mais amor, não existe, e foi difícil conseguir enxergar. Respiro fundo e assumo isso em um grito que ecoa pelos cômodos enquanto o café esfria sem que eu tenha coragem de tomá-lo, eu preciso dormir, repito. Enxugo as lágrimas que descem espontaneamente pelo meu rosto e abaixo o porta-retrato com a nossa foto. Eu preciso descansar, daqui algumas horas o despertador vai tocar anunciando que a semana começou de verdade e talvez eu devesse começar junto dela. O futuro não existe, o real é o agora, essa é a única certeza que se tem. Jogo o líquido pelo ralo, eu preciso dormir, porque você não vai voltar e a vida tá batendo na minha porta me convidando pra ir ser feliz e eu não tenho que ficar te esperando. To indo nessa, igual você foi. Boa noite.

2 comentários:

  1. Quando penso que algo não pode ficar melhor e mais coerente, mais cheio de arquiteturas lexicais e mudanças de roteiro, você vem e me desmente.

    Brutal, Gabi.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.