Nova Perspectiva

11 de setembro de 2015

Ainda é sobre a nossa história

Via reprodução
Às vezes eu faço o nosso caminho só pra correr o risco de te encontrar. Uma dessas coincidências que a gente finge que foi por acaso mesmo sem ser. Vou mais devagar e olho pra trás repetidas vezes até ter certeza de que ainda não é você. Nunca é, mas eu sempre espero. Quem sabe em uma dessas manhãs ensolaradas você não chega e a gente se encontra pra matar a saudade que me consome por dentro. Continuo andando lentamente enquanto procuro pelo cheiro do seu perfume barato, revivo mentalmente todas as vezes em que caminhamos de mãos dadas pelas mesmas ruas que eu caminho, agora, com os dedos desprendidos dos seus.

Paro alguns minutos na nossa padaria, peço um café amargo, pra viagem, por favor, e olho pro lado de fora me questionando se você ainda toma o seu pingado aqui. Torço pra que sim, quem sabe assim a gente não se esbarra e você me convide pra dividir um pão na chapa com requeijão na saída. Me recuso a admitir que eu não pego atalhos só pra correr o risco de te ver, como se isso fosse o último fio de esperança que ainda existe pra que nós dois consigamos nos dar conta de que precisamos estar juntos e eu não posso soltar. Não posso, repito pra mim mesma em um eco mudo. Pago a conta e mais uma vez vou embora sem o gosto doce da sua boca misturado com o meu hálito de quem prefere viver a vida sem açúcar.

Volto a andar pela nossa calçada e engulo seco cada golpe que as lembranças me dão, tem aquele dia em que a gente brigou e você foi correndo descalço pra me pedir de volta, e eu voltei, teve também aquele outro em que caia uma tempestade e a gente corria na chuva e parava pra se beijar e depois corria mais um pouco até que escorregamos e o nosso amor alagou a avenida. Em cada esquina tem um pouco das nossas brigas, do nosso cheiro, do nosso amor. Em cada beco tem um pouco da gente, dos nossos beijos, berros, sussurros, toques e segredos. Aguardo o ônibus no mesmo ponto em que eu te espero desde o dia em que você resolveu tomar um outro rumo, e embarco pra um caminho diferente do seu. Ainda não foi hoje.

Observo pela janela a cidade passar e analiso os rostos com uma pitada de expectativa de que um deles seja o seu, e deixo algumas lágrimas rolarem enquanto abro o café e sinto meu peito se aquecer com ele, pelo menos com ele. É como se a gente tivesse perdido mais um dia dos nossos dias e mesmo assim eu não consigo ter coragem de desistir, afasto a ideia de que você possa ter mudado de bairro do mesmo modo que mudou de número e de amor, nego a possibilidade de que você não ande mais pelas nossas ruas, mesmo que seja só de vez em quando, mesmo que seja só quando a saudade fica insuportável demais pra te fazer pegar o acesso mais curto. Suspiro enquanto o relógio revela que eu vou chegar atrasada, de novo, e que ainda não valeu a pena. Depois de todos esses anos e todas essas histórias e promessas e noites, ainda é você e eu não sei como fazer pros nossos caminhos se cruzarem de novo.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.