Nova Perspectiva

28 de setembro de 2015

Agora eu ando ocupada demais comigo mesma

Via reprodução
Quarenta e cinco ligações perdidas e uma preguiça imensa de ouvir sua voz. Encaro o visor do celular me indagando sobre o que você pode querer dessa vez. A gente já disse tudo. A gente já disse tanto. E mesmo assim parece que não foi suficiente. Você insiste, tenta mais uma vez e outra e mais outra. E eu recuso todas antes mesmo que alcancem o segundo toque. É melhor assim. Inclino o corpo pra trás e apoio a cabeça na cabeceira da cama, adiciono um modo silencioso interno, fazendo com que o único som que eu consiga ouvir seja o do meu coração, que bate meio incerto, igual eu.

Queria que você soubesse de todos os dias que eu perdi esperando por uma ligação sua, só uma, a qualquer hora, pra falar sobre qualquer coisa. Eu só precisava que você me procurasse pra que eu pudesse te contar que também estava te procurando, e eu te buscava feito garimpeiro em mina de ouro, enquanto você fugia, se escondia, sumia. Eu queria que você soubesse de todas as noites em que eu ensaiei desculpas pra poder ouvir a sua voz do outro lado da linha, discava seu número e apagava antes mesmo de confirmar a chamada, porque eu sabia que você não ia me atender. Naquela época, cê não estava muito disponível pra mim, andava sempre ocupado, atrasado, atolado, e eu permanecia te esperando. Talvez amanhã ele apareça, dizia pra mim, e o amanhã nunca chegava.

Eu escrevia centenas de declarações de amor na sua caixa de mensagem, mas me faltava coragem pra enviar, ainda que isso não fosse ter feiro diferença alguma: todo mundo sempre soube que eu te amava, inclusive você. O celular toca mais uma vez e eu cancelo a chamada, me lembro de quando era eu quem te buscava desesperadamente, acessava as suas redes sociais atrás de alguma pista que me fizesse te encontrar coincidentemente por aí, talvez na balada do próximo sábado que os seus amigos tinham te marcado ou no novo restaurante japonês que você curtiu a página. Talvez na rua de casa, enquanto cê voltava do trabalho e eu da faculdade. Eu decorei seus horários, seus lugares preferidos e o número da sua casa, mas isso nunca fez diferença. Embora tenhamos nos encontrado várias vezes, a verdade é que a gente nunca se achou, de fato, um no outro. Pelo menos não reciprocamente.

Quando o amor acaba, não há mais nada que se possa fazer. Infelizmente. Desligo o celular, e penso se eu não deveria mudar de número. Talvez. Você mudou, pouco antes de que eu me mudasse de você. Enquanto eu tentava te encontrar pelos becos que a vida esconde da gente, você se perdia em outras bocas, e eu me perdi um pouco também, mas foi de mim. Estive desorientada tempo suficiente pra me esquecer de quem eu era antes de você aparecer e mudar tudo do lugar, depois ir embora deixando a bagunça pra mim e voltar com cara de cachorro arrependido pedindo pra entrar pela última vez na minha vida. Deixei que você entrasse várias últimas vezes em mim, e em nenhuma delas você realmente ficou. E eu te esperava chegar mais uma vez pedindo mais uma chance pra fazer diferente. E isso foi me destruindo, sem que eu pudesse perceber. Definhei no meio dessa nossa história enferma.

Até que teve um dia que eu bebi demais e passei da conta, decidi que iria resolver a nossa história, te liguei meio embriagada mais de cem vezes e lotei sua caixa postal com recados apaixonados que eu vinha privando dentro de mim, então uma mulher atendeu pedindo pra que eu parasse de te incomodar. Você não teve nem coragem de falar que eu era um peso, pediu pra que o recado fosse transferido até mim. Aquilo terminou de me fazer despencar. Eu sofri, muito. Chorei madrugadas inteiras ouvindo as nossas músicas, vivi um inverno mental no meio do verão mais quente do mundo. E achei que ia morrer. No fundo, a gente sempre acha que vai. Mas as feridas começaram a cicatrizar e eu fui me lembrando do que eu era. E eu era feliz, sabe? Antes de você aparecer eu sorria mais, ria mais. E senti falta da leveza que eu tinha e da forma como eu levava a vida. Acabei me dando conta de que eu tinha me deixado de lado pra poder me ocupar só com você, em uma tentativa insana de que isso fosse o bastante pra que você me amasse. Só que não foi. E eu precisava me devolver o tempo que eu desperdicei com alguém que não valia os meus minutos.

Por isso eu não te atendo, nem hoje, nem amanhã e nem depois. Não é vingança, nem uma maneira que eu achei pra que você passasse pelo que eu passei, eu só ando ocupada demais comigo mesma. Consegui reconstruir a vida que você me tirou, um processo demorado, cansativo. Deu um trabalho imenso colocar todas as suas marcas pra fora de mim. Foi árduo, eu sangrei, cicatrizei, achei mais feridas, doeu, me cuidei sozinha e fui me curando, aos poucos, até renascer, feito uma fênix. Recuperei as rédeas e não abro mais mão de mim. Nem por você. Então, por favor, pare de me incomodar, que eu não tenho mais tempo pra perder.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.