Nova Perspectiva

12 de agosto de 2015

Pena que você ainda é o mesmo, moreno

Via reprodução
Quando você tocou aqui em casa no meio da noite com aquele vinho importado embaixo dos braços, o meu chocolate belga favorito na mão e a cara amassada de quem passou o dia chorando, eu achei que você merecia entrar. E não foi só por pena não, sabe moreno? É que cê veio com essa sua fala mansa, esse jeitão de quem tá arrependido, dizendo que não conseguia parar de pensar na gente e que não era justo toda a nossa história acabar daquele jeito, e eu também achava que que não era. Fiquei te olhando ali parado na minha porta e um filme mudo passou pela minha cabeça com todas as promessas que já tínhamos nos feito e pensei: por que não? Então eu te convidei pra tomar uma taça comigo enquanto passava alguma série na tv à cabo e antes que eu pudesse repensar nas consequências que aquilo podia vir a ter eu já estava em volta dos seus braços pedindo pra que você ficasse até amanhã.

Você trouxe de volta todas as suas bagagens, recuperou o seu espaço no guarda-roupa, na cozinha e na minha vida, deixei com que você tomasse pose da televisão com os seus canais de esporte, do congelador com as suas cervejas baratas e do meu coração, ainda em processo de cicatrização. Eu te devolvi tudo o que você chorava por ter perdido e só te pedi pra que daquela vez a gente fosse diferente, porque eu não queria que desse errado de novo, entende? E você jurou de mindinho que seria, garantiu que esses meses batendo com a cabeça na parede tinham te ensinado a preservar o que a gente tinha de bom e eu acreditei, moreno, eu acreditei porque eu vinha sonhando com aquela cena desde o dia que você bateu a porta de casa dizendo que precisava conhecer novos ares, eu vinha te esperando desde o momento em que você saiu de casa com a mala pronta pra embarcar em uma viagem que cê garantia ser sem volta, aí você chegou durante uma semana turbulenta prometendo ser a paz que me faltava e eu te deixei voltar, mesmo com todo mundo dizendo que era loucura, mesmo com todas as provas que eu já tinha de que a gente não era pra ser, eu abri minha casa, meu corpo e minha alma pra você entrar de novo porque eu sentia que dessa vez podia dar certo, sabe? Porque eu achei que você tinha mudado. Mas eu estava enganada, você ainda é o mesmo.

Não demorou muito pra rotina voltar, com ela vieram, também, os gritos e as brigas e a vontade de me trancar no quarto e esquecer que você estava aqui. De repente as suas atitudes voltaram a me machucar e todo aquele pesadelo engoliu o meu sonho de final feliz. Eu tinha confiado, entende moreno? Eu tinha te dado mais um voto de confiança porque eu acreditava na gente, eu acreditava que o nosso amor, pelo menos ele, era de verdade, mas aquela história só estava gastando as minhas páginas. Você ainda era o mesmo imaturo que largava a toalha no meio da casa, atendia as ligações baixinho pra que eu não ouvisse e saia no meio da madrugada na ponta dos pés enquanto eu fingia que dormia. Só que eu já não chorava mais. Cada ferida fazia com que eu sentisse menos pena de mim e mais raiva de você. Aquilo não estava certo. Em uma dessas noites que você saiu, eu levantei e coloquei de volta toda aquela sua bagunça em uma mala velha, pra que você não precisasse nem me devolver, e ajeitei tudo no canto da sala, quando você chegou fazendo cara de paisagem eu não sabia se chorava, gritava, ou só tentava entender onde é que eu estava com a cabeça quando achei que você era digno de mais uma tentativa minha. Não era, nunca foi. Eu não precisei dizer nada, estava escrito na minha testa e você soube ler, melhor assim. Você ainda era o mesmo, moreno, mas nesse tempo eu acabei descobrindo que eu já era outra.

Um comentário:

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.