Nova Perspectiva

8 de agosto de 2015

No final não é tão ruim assim

Via reprodução
É provável que isso saia um pouco mais confuso do que eu venho planejando, já faz certo tempo que eu tenho tentado te escrever alguma coisa, algo que vá além de te dizer que eu to bem, que tenho pensado em você com certa frequência e que a nossa história ainda não saiu da minha estante. E agora eu to aqui, encarando a imensidão azul desse céu estrelado em uma das madrugadas mais quentes desse inverno. Não importa o sabor do chá que eu tome, nada faz essa insônia mental passar, por isso resolvi que preciso fazer isso, vomitar de uma vez o que está entalado. É um grito desesperado de um coração que precisa descansar. O mais racional, talvez, fosse esperar até amanhã e te escrever com um pouco mais de calma, mas você sabe como eu sou, não é? Intensa demais pra guardar meus desejos em um potinho e ir dormir. Não consigo engolir o que o meu peito está implorando pra que eu grite.

Não sei direito como começar isso daqui e também não decorei a lista de tudo o que eu tinha para te falar, tem muita coisa e eu tenho medo de me enrolar e acabar não dizendo nada, então eu acho que só vou deixar sair o que eu to ensaiando todos esses dias e não digo, daquele jeito meio desesperada que te deixava um pouco assustado, lembra? E tudo bem se você não conseguir entender nada do que eu te falar, porque no fundo nenhuma dessas coisas vai fazer muito sentido. Pelo menos não agora. Pelo menos não enquanto a nossa alma pesar com saudades de tudo aquilo que não vamos poder viver.

A nossa história acabou antes que tivéssemos tempo suficiente para começar qualquer coisa que fosse um pouco mais eterna do que essa imensidão de linhas vazias que não serão preenchidas por nós dois, a nossa história acabou, porque, no fundo, nem tinha o que começar. Por mais que a gente quisesse - e a gente queria, muito, eu sei - não tínhamos como ser alguma coisa além daquilo que já éramos: uma confusão que não se encaixava de maneira alguma. Eu era dia e você lua cheia, eu era certeza e você aventura, eu era suco de laranja, sem açúcar, por favor, e você vodka com limão, bem forte, de preferência. A gente já não era, nem dávamos pra ser, percebe? Os nossos signos não batiam e o meu sonho de estudar, casar e ter filhos não cabia no seu desejo de viajar por todos os cantos em que pudesse ir.

Eu não queria me tornar uma daquelas bagagens pesadas que atrasam a viajem, sabe? Eu não queria fazer você se atrasar ainda mais na sua busca incansável de conquistar o mundo. Mas, aqui no fundo, desejava que a gente tivesse dado certo, porque nas nossas vidas já tinham dado tantas vezes errado que nós merecíamos que esse final fosse feliz. Secretamente, eu acreditava que só por termos colecionado tantos machucados não custava nada sermos o curativo um do outro, sabe? O remédio perfeito pra apagar todas as cicatrizes que esses desamores tinham nos deixado. E de certo modo nós fomos os nossos band-aid e isso fez com que a gente se cicatrizasse, mas agora as nossas peles precisam respirar novos ares e já não somos mais necessários, felizmente ou infelizmente eu ainda não sei te dizer, mas posso garantir que a gente foi o que precisávamos ser. Essa mescla de um monte de nada que virou tudo e ajeitou a casa.

Até ontem eu achava que você tinha sido a pessoa certa na hora errada, mas eu me enganei, você foi a pessoa errada na hora certa. Errado, porque, apesar de toda aquela paixão e aquela vontade de dar em algum lugar que fizesse a nossa história parecer com um conto de fadas, a gente não chegou a se amar, pelo menos não um amor daqueles que tiram o fôlego e o sono e fazem a gente desejar que a eternidade seja aquele sorriso, a gente foi a paz que o outro precisava, apesar das brigas e dos choros, acabamos encontrando um no outro aquilo que tava difícil de achar dentro da gente. E hora certa, porque sozinhos não teríamos conseguido enxergar a luz no fim do túnel, acabamos sendo o interruptor do outro e isso tornou tudo mais claro. De um jeito meio sem sentido, nós precisávamos um do outro pra descobrir que o bom é não precisar de ninguém. E depois nós acabamos, de um jeito meio prematuro, meio sem que nos fosse perguntado se era isso que a gente queria, e talvez a gente nem quisesse, mas e daí? Tá tudo bem agora e o que importa é que a gente tentou, não é? O que importa é que a gente não teve medo de se jogar num precipício sem ter ideia de onde isso vai acabar. No fim, acabamos virando mais uma marca pra ficar fixada em nossas peles e agora não dá pra perceber porque ainda dói, mas ela é bonita, sabe? Pela primeira vez é uma marca bonita, dessas que valem a pena a gente levar conosco. Só não dá pra nos arrastarmos um ao lado do outro pro resto da vida. Por isso eu me despeço aqui, e sei que mesmo que não faça sentido algum você vai me entender.

Seja feliz, que eu também vou ser.

Um comentário:

  1. Adoro seus textos!!! nunca pare de escrever. Sempre escrevendo tudo o q eu precisava ler, sempre definindo a confusão dentro de mim!!!

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.