Nova Perspectiva

20 de agosto de 2015

Não tenho mais tempo, moreno

Via reprodução
Você me olha mais uma vez procurando pelas palavras certas, mas se cala ao constatar que não há mais nada para ser dito. Enquanto isso, a mudez dos nossos pensamentos ecoa pelos quatro cantos da sala quebrando as janelas que não temos coragem de escancarar. Cê já tentou de tudo, não é, moreno? Discorreu inúmeras frases sem cabimento na tentativa de não caber em mim, recitou mentiras intragáveis na ânsia de que, pelo menos assim, eu fugisse de nós, proferiu histórias inventadas e se agarrou à ideia de que você não era o bastante pra mim, ao passo que eu só queria que a gente desse certo. Do outro lado do cômodo eu choro, porque a vida me fez chorona e eu só aprendi a gritar pelos olhos. Choro, porque me disseram que assim o amor vai embora, e eu quero que você vá esperando que você fique para sempre.

Amar assusta, eu sei. Embora meu semblante exale coragem e segurança, eu também tenho medo, moreno. O amor é como um salto de bungee jump que pode dar errado, mas eu sempre soube que se você estivesse comigo o risco seria bem menor. Acontece que agora estamos caindo e a corda pode arrebentar e eu não sei por mais quanto tempo posso segurar a barra por nós dois. Aqui, quieta no meu canto, eu escondo que, assim como você, coleciono cicatrizes de romances falidos, reservo um pedaço de mim pra guardar todas as vezes em que o tombo foi grande, desse jeito eu não me esqueço o quanto cada queda doeu e de como eu consegui me reerguer ainda mais forte. A vida é feita desse eterno cair e levantar, entende? Pode ser que o penhasco seja assustador e solitário e o chão te quebre um pouco, mas pode ser que você tenha uma outra mão pra segurar a sua. Isso a gente só descobre quando não dá mais pra voltar atrás. Amar é arriscar e eu topei todos esses riscos quando me lancei de cabeça dentro de você.

Também tenho meus traumas, moreno, mas ainda não perdi a Fé no final feliz, nem na gente, mas já perdi certo tempo com os seus pretextos pra fugir do que a gente sente, já perdi um pouco da minha paciência com o seu medo de dar errado. De certo modo, você já está fazendo com que dê. Então muda seu plano, sua meta, seu rumo, só não faz com que eu desista da gente com o esse seu pavor de se abrir pro mundo. Se abre pra mim, moreno, que a casa já está aberta pra você. Eu sei que cê quer, tanto quanto eu, mas o relógio não vai esperar você se dar conta de que a vida é uma só e não dá para deixar o amor pra amanhã, eu não tenho mais tempo, moreno, então cria coragem, respira fundo, larga essa bagagem pesada carregada com desculpas mal ensaiadas aí do lado de fora, e vem que eu te espero no quarto.

Primeiro post do grupo "Escritores na Era do Compartilhamento".
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