Nova Perspectiva

29 de agosto de 2015

Eu escolhi ficar comigo

Via reprodução
A verdade é que doeu demais, sabe? Ter que me desfazer de tudo o que me lembrava de você, mas eu não tinha outra opção, ou ficavam as lembranças espalhadas pelos cômodos de casa ou ficava eu, não havia mais espaço para coexistirmos. Chega um momento em que o presente nos coloca contra a parede e cobra a nossa presença, não dá pra viver preso no passado, não dá pra viver de uma história que acabou no meio do caminho. A gente precisa seguir em frente. O apartamento estava empesteado do seu cheiro, a cozinha das tuas cervejas, o quarto das nossas fotos, a sala dos seus discos de vinil e o meu coração de você. Em algum lugar entre o nosso fim e aquele pra sempre que não existiu, eu me perdi e foi difícil pra cacete achar o caminho de volta. Eu errei um punhado de vezes, entrei em diversas ruas sem saída e dei de cara com muros imensos, eu dizia para mim mesma que aquilo era o destino querendo me colocar de volta na sua vida, mas todos aqueles caminhos errados eram só uma desculpa para eu não me agarrar ao mapa e ir embora de uma vez. No fundo, a gente sempre sabe o que fazer, só precisa de coragem pra ir até o final. Eu me decidi por seguir o GPS, mas só depois de cair em muita quebrada e me quebrar inteira.

Não fui eu quem foi embora, isso seria fácil, o difícil é deixar algo que não nos cabe mais, partir. E eu te deixei ir. Na realidade, você já não existia mais aqui, na minha vida, o que existia era uma saudade apertada que esmagava a minha força, eram recordações de tudo aquilo que a gente não conseguiu ser, era o vazio do espaço que você deixou em mim. O que existia eram páginas em branco que não tinham como serem preenchidas, eu não entendia que sem a tua mão não importava quantas folhas sobrassem, elas seriam apenas lixo, e eu fui lutando contra o papel até que não deu mais, aquele garrancho todo se misturou ao meu choro e não deu pra salvar mais nada. No fundo, eu sabia que não tinha o que salvar. Então, eu resolvi não me abandonar. No meio daquelas estradas cheias de caos sentimental, eu me lembrei que nunca tinha esquecido o caminho de volta pra casa, ergui a cabeça e não parei de andar até ficar impossível avistar qualquer resquício de nós dois.

Eu sobrevivi, amor, mesmo com todas aquelas promessas que ficaram esquecidas e não terão chances de se concretizar, mesmo com todo o medo de vencer o mundo sem você aqui comigo, mesmo sem saber se tudo daria em algum lugar melhor do que aquele em que eu estava. E deu, na real, daria de qualquer maneira. Qualquer lugar é melhor que a fossa de um romance que deu errado. Eu sobrevivi porque eu resolvi deixar os nossos fantasmas descansarem em paz. Amém. Eu sobrevivi e descobri que não é tão difícil assim, juro, a gente descobre na gente o melhor caminho pra ser feliz, é só criar coragem e olhar o mapa. Abrir mão de uma história não é desistir do amor, pelo contrário, é se apegar à certeza de que ainda vai ser, e eu sei que vai. Não era você, mas sempre vai ser eu, sabe? O amor da minha vida. Por isso eu escolhi ficar comigo.

2 comentários:

  1. O apartamento estava empesteado do seu cheiro, a cozinha das tuas cervejas, o quarto das nossas fotos, a sala dos seus discos de vinil e o meu coração de você.

    Derreti-me inteira lembrando de mim em outras épocas. Foi difícil, mas também escolhi ficar comigo. Entre os cacos que sobrou de um amor antigo, refiz-me inteira. Feliz de mim quando encontrei um amor capaz de me amar assim, remendada.

    Lindo texto, Gábs. Morri de amar ♥

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  2. Meu Deus menina, seus textos me descrevem sempre, são lindos.
    Preciso de um livro seu pra já.
    Parabéns viu.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.