Nova Perspectiva

2 de agosto de 2015

Desculpa, mas dessa vez eu tranquei a porta

Via reprodução
Eu vi você sair da minha vida incontáveis vezes pra depois voltar como se nada tivesse acontecido, como se um pedaço meu não ficasse pra trás em cada despedida, como se não importasse todas as noites em que eu passei chorando pela tua falta repentina, como se eu pudesse reconstruir meu coração sempre que você o quebrava. Deixei com que você fosse todas as vezes que disse que precisava de mais um tempo porque eu sabia que cê voltaria pedindo só mais um pouquinho da minha paciência pra ter certeza de que era eu, realmente, o amor da sua vida. Mantive a porta escancarada enquanto você invadia outras casas, na esperança de que uma hora ou outra cê chegasse com a bagagem cheia pedindo um espacinho do meu guarda-roupa. Eu parei a minha vida pra que você sempre soubesse o caminho de volta e você ia e vinha e ia mais um pouco até voltar cheio de promessas e juras de amor que duravam só até o dia seguinte e então você já não estava mais aqui. Eu te vi partir e fui me partindo um pouco cada dia em que a solidão denunciava que eu estava sozinha, de novo.

Eu vi você mudar de status e de relacionamento como quem pede mais um copo d’água, mas agora de outra marca. Acompanhei sua vida pelas redes sociais e chorei quando você postou a nossa música pra ela e pra outra também. Meu mundo foi desmoronando enquanto você construía com elas o que eu tanto tinha sonhado que fosse nosso, de certa forma eu sempre fui o seu porto seguro, mas você nunca quis ancorar seu barco em mim. Eu vi você jurar amor eterno pra outros corações enquanto o meu se despedaçava com a sua falta. Eu sofri tanto, rapaz, todas as vezes em que você saiu levando um pedaço meu e se perdeu em outros braços, mas aí você voltava, entrava sem nem tocar a campainha e eu deixava, mesmo sabendo que não duraria muito, mesmo sabendo que seríamos pra sempre o que a gente já era: um misto de tudo que não significava nada. Eu deixava porque, apesar de tudo, eu não queria te deixar sair de vez. E então você ia e eu assistia de camarote sua vida encenar novos espetáculos.

Eu vi você se enganar e se arrepender e dizer que me amava, mas que ainda não era a nossa hora. Na verdade, rapaz, você nunca quis que houvesse uma hora nossa. E tudo bem, sabe? Eu só queria que, de alguma maneira, você não sumisse de mim, não tinha problema você guardar a nossa história no bolso, eu só não queria que você largasse a gente em uma esquina abandonada. E eu via você saindo no meio da noite sem fazer barulho pra não me acordar e esperava quietinha pela minha vez, sem cobrança e sem escândalos, pois eu sabia que você voltava. Até o dia em que você não veio. Doeu muito, sabe? Eu ficava olhando a rua na esperança de te ver gritando que sentiu a minha falta, mas você não vinha e eu deixava a saudades rolar pelos meus olhos sem ter ideia do que fazer para aquela dor passar. Depois de um tempo te vi por aí espalhando que tinha encontrado a pessoa certa e cê tava tão feliz, mas era tanta felicidade estampada no seu rosto que eu tive até medo que dessa vez fosse de verdade. E era. E eu morri ali, sabe? Aquela menina que eu era, apaixonada e paciente, ela ficou enterrada naquele beijo de despedida que você não me deu, mas eu senti.

Eu vi você partir e tive que me adaptar à um novo mundo em que você não poderia estar, foi tão difícil no começo, rapaz, mas as coisas foram acontecendo e eu fui me reconstruindo. Com tijolinho por tijolinho eu ergui minha vida sozinha. Um pouco mais loira, um pouco menos centrada e muito mais feliz. Foram necessários alguns porres e meia dúzia de caras babacas pra eu me dar conta de que tudo que eu precisava estava logo ali, eu só não conseguia ver o quanto era bom estar comigo, foi no meio de alguma festa que eu me dei conta de que nessa história toda não fui eu quem saiu perdendo e eu me senti bem, porque é bom saber que depois de qualquer tsunami a vida se ajeita e o que fica é o que importa. E então em uma dessas madrugadas você me ligou com a voz meio embriagada dizendo que lembrou de mim e eu me dei conta de que quase me esqueci da sua voz. Respirei fundo e te desejei boa sorte, que cê vai precisar, porquê dessa vez não vai dar. Agora a porta está trancada e não adianta voltar mais tarde que eu mudei de casa.

4 comentários:

  1. Muito lindo e a verdade..

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  2. PQP, você descreveu a parte mais recente da minha "quase" história de amor! Vi minha história da primeira linha a última! Muito bom!

    Beijos

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  3. MEU DEUS, me identifiquei com cada frase desse texto. Amei esse blog, de coração <3
    Parabéns, ganhou mais uma admiradora!
    ritmoamorepoesia.blogspot.com

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  4. Caraca. Que texto mais louco. Mitou muito! Minha história se resume a isso. ������

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.