Nova Perspectiva

31 de agosto de 2015

Chega, preciso de um tempo comigo

Via reprodução
Chega que eu to exausta, meu corpo exclama a fadiga de quem passou meses lutando contra si mesmo na tentativa de provar pra sei lá quem que não havia com o que se preocupar. Havia, sim, cara. Eu estive na merda durante todo esse tempo em que você refez sua vida, e lá fedia pra cacete, sabe? E eu tava sozinha pra sentir aquele cheiro e aquilo corroía a minha alma e eu fingia que não tinha problema nenhum, mas tinham vários, cara, eu só não queria dar o braço a torcer e revelar para o mundo que eu não sabia o que fazer sem você pra me ajudar à sair dali de dentro.

Eu fui levando os meus dias como quem espera por um meteoro pra acabar com tudo sem perder a expressão de neutralidade no rosto, por fora um sorriso emoldurava o retrato perfeito da indiferença e por dentro eu morria um pouco mais a cada segundo que o relógio deixava passar. Fui protagonista e coadjuvante da peça que eu mesma dirigi, mas meu teatro enganava pouca gente, nem mesmo eu conseguia acreditar naquela encenação malfeita de quem toma um tiro no pé e sai andando como se não estivesse doendo. Está, muito, e agora eu não consigo pensar em outra saída que não seja fechar as cortinas e parar um pouco pra respirar.

Olha, cara, eu to estirando a bandeira branca e tirando meu time de campo, eu preciso de um tempo pra mim. Não importa se amanhã é o dia daquela reunião importantíssimo ou se essa semana as provas começam, eu não quero saber de planilhas e documentos e legislação. Tanto faz quem é que vai tocar hoje na balada e se você vai estar lá, dessa vez eu não vou, minhas pernas não aguentam mais correr atrás de quem corre de mim. Cansei, entende? Cansei de fingir que eu já superei e que não foi nada demais. Cansei de fazer demais por quem me faz quase nada, cansei, depois de investir todas as minhas energias em uma história que não valia o meu tempo e me dar conta de que ela nunca vai valer. Cansei de esperar por quem eu sei que não vai vir, cansei, ainda mais, de querer que você venha.

To sem vontade de sair da cama, to sem saco pra ouvir aquela ladainha de quem acha que, porque viveu uma história parecida com a minha, pode meter o nariz sem ser chamado. To sem paciência pra psicólogo de quinta, não quero e nem consigo bancar a superior, não mais, não agora, e não importa se vão me olhar com carinha de pena e comentar baixinho enquanto eu passo. Que olhem, que comentem, eu vou dar espaço pra plateia vaiar o espetáculo, mas não vou mais assistir a minha vida ser desperdiçada enquanto eu brigo pra que ninguém saiba que sou eu quem está desperdiçando-a. To com preguiça de fingir que estou feliz. Não to, mas vou ficar, eu sei. Só preciso me desligar dos outros e me dar um pouco de atenção, aquela que eu desperdicei com quem valia muito menos do que eu mereço.

4 comentários:

  1. Seu texto é sensacional e você acabou de descrever uma fase que estou vivendo. MEU DEUS!

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  2. " To com preguiça de fingir que estou feliz. Não to, mas vou ficar, eu sei. Só preciso me desligar dos outros e me dar um pouco de atenção,"

    Tô com a mesma preguiça, mas talvez por motivos diferentes. Precisando me desligar do mundo e me ligar em mim.
    Ótimo texto Gabi, como sempre!

    Beijo

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  3. Aaaaaaaaaaaai gabs, assim cê destroi minha alma =T

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.