Nova Perspectiva

6 de agosto de 2015

As vezes eu erro também

Via reprodução
Ele era perfeito e isso podia ter sido tudo se a gente não tivesse virado nada. Bom moço, boa pegada, bom papo, do tipo metido a intelectual com cara de galã de novela, sabe? Pela primeira vez em anos eu senti que tinha alguma coisa que todo mundo queria e isso parecia ser legal. De um jeito meio egoísta e individualista, de um jeito meio filha da puta, eu deixei ele ser o meu troféu. Deixei com que ele se transformasse em um objeto de decoração caro e raro, desses que a gente nem gosta muito, mas expõe no centro da sala só pra atrair inveja das visitas indesejáveis.

Tiveram alguns domingos em que ele me trouxe algumas flores que eu nunca cheguei a regar, me enviou declarações de amor nas noites em que eu beijava outras bocas na balada e respondia as mensagens de forma monossilábica porque eu não tinha o que dizer. Colecionei convites pra jantar, cinema e motel enquanto ele me esperava voltar de alguma reunião do trabalho. Eu menti, mais pra ele do que pra mim, pelo simples prazer de chegar em casa depois de descobrir outros corpos e saber que tinha alguém me esperando da maneira mais inocente e apaixonada que desse. Teve uma vez que ele resolveu me presentear com o coração embrulhado em plástico bolha, coitado, eu aceitei e prometi com toda a mentira do mundo que zelaria pelo seu bem mais precioso, mesmo sabendo que o meu cuidado não seria suficiente para protege-lo de mim, porque cedo ou tarde eu o deixaria cair e quebrar e nenhuma proteção seria suficiente pra não transformá-lo em mil caquinhos vermelhos.

Eu sabia, desde o começo quando decidi fingir sentir o mesmo que ele, que alguém sairia machucado e que esse alguém não ia ser eu, mas resolvi arriscar. Afinal, se eu, cheia de marcar e hematomas e machucados por ter saltado de tantos precipícios em que me faltou uma outra mão pra segurar, sobrevivi, por que com ele haveria de ser diferente? Talvez doesse uns meses, mas ia passar. Sempre passa. E ele tiraria alguma lição disso tudo. Quando o grande dia chegou e eu sussurrei os temíveis "não é você, sou eu" o bom moço chorou, um daqueles choros com lágrimas pesadas que doem um pouco na gente que vê, cheio de soluções e indagações presos na garganta. Ele andava de um lado pro outro gesticulando o quanto era injusto eu acabar sem motivo algum e querendo entender o que tinha dado errado entre a gente, ali apoiada no canto da parede, refletindo com o meu silêncio, eu me questionava quando é que tinha dado certo. O problema nunca foi você, moço, eu juro! Eu só perdi o controle dessa brincadeira e alimentei esperanças sobre algo que, pra mim, já era inexistente. Eu deixei você sonhar acordado com a nossa história enquanto eu dormia em outros braços. E te ver ali, aos prantos gritando um desespero desenfreado com o coração espalhado pela minha sala, fez com que eu me sentisse pela primeira vez a vilã da história. O outro lado ainda é podre quando é a gente que está nele.

Eu pedia desculpas e ficava repetindo que o problema era eu e que a gente já não se encaixava mais e que ia ficar tudo bem e quanto mais ele chorava mais eu lembrava de todas as vezes em que aquele choro foi meu. E eu senti uma vontade inexplicável de te abraçar, porque a ficha caiu e eu vi que tinha feito tudo errado. Acabei me transformando em uma daquelas pessoas que eu tanto apontei o dedo e dediquei minhas cicatrizes e virei a sua primeira ferida. Sinto muito, moço, mas anota aí: o problema não era você, nem com você, então não me tire a culpa que eu preciso carregar. Pela primeira vez ela é minha, e me dói admitir isso. 

Sinto muito por não ter sentido nada, fica bem.

Um comentário:

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.