Nova Perspectiva

10 de agosto de 2015

Amo(r)leceu

Via reprodução
Quem diria que ela, logo ela, sempre tão segura e independente, ia perder o passo da dança e cair de amores? Sustentava o nariz empinado e gritava aos ventos que sabia de cor e salteado todos os rodopios necessários para sair inteira de qualquer competição, mas durante o espetáculo se despedaçou no meio da pista por um cara que mal sabia a coreografia. Se permitiu ser conduzida por mãos grossas de alguém que de nada tinha a ver com o seu ideal de doçura depois de se gabar tantas e tantas vezes que no palco da vida ela brilhava sozinha. Coitada. Perdeu a pose e quebrou o salto quando sentiu seus olhos focarem os dele e não conseguiu mais acompanhar a música.

Ah, logo ela que tinha todo aquele discurso sobre estabilidade emocional na ponta da língua, batia de frente com o mundo garantindo que amor ali não, era blindada pra essas frescurinhas de quem não tem controle de si mesmo. Parecia indestrutível, um poço de segurança que causava inveja à quem via de fora. Exibia aquele sorriso irritantemente misterioso como se convidasse os desavisados a se perder dentro dela. Alguns corajosos iam, mas poucos conseguiram voltar de lá. Espalhava por aí que seu peito já havia sido machucado demais pra ficar exposto à novos arranhões, não queria, nem podia, se permitir cair nessas armadilhas. Era o sinônimo mais perfeito de razão. Até que ele apareceu.

Foi numa dessas arapucas que a vida arma pra gente descer do salto, que ela precisou mudar o tom. Perdeu a graça quando se viu fora do eixo por alguém que ela não dava nada, ficou descompassada, sem graça, coitada. Ela até tentou, eu vi, lutou com toda a força que tinha contra aquilo que invadia sua alma e estraçalhava cada pedaço da sua armadura tão bem preparada para protegê-la do que despertasse algum indício de ameaça. Mas não deu, a emoção gritou mais alto e ela não conseguiu fingir que não ouvia. Ela escutou e aquele som percorreu cada canto do seu corpo até se alojar no coração e infecta-la com o que mais temia. Tropeçou no próprio ego quando tentou provar pro mundo que podia ser mais forte que o amor. Ninguém é. Agora ela também sabe.

2 comentários:

  1. Ninguém está livre, né? Até mesmo os "corações de pedra". Mas sabe, mesmo que a gente sofra, vale a pena se arriscar. Se proteger, um passo de cada vez, claro. Mas deixar de viver, por medo, é perda de tempo. Adorei o texto! ^^

    Beijo,
    Carol
    www.pequenajornalista.com

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  2. Ahh Gabi, esse foi o texto sobre desilusão mais bem escrito que eu já li <3


    Último Biscoito | www.ultimobiscoito.com

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.