Nova Perspectiva

29 de julho de 2015

Te esqueci quando eu me esqueci de te esquecer

Via reprodução
Dia desses, durante uma daquelas faxinas intermináveis que eu levo pouco mais que o dia todo para concluir, encontrei um bilhete amassado em baixo da minha cama "a vida é feita de momentos, se você fica preso em um perde todos os outros" não tinha remetente, mas eu sabia que era pra mim. Como? Bem, é que fui eu mesma que escrevi.

Quando você foi embora e eu achei que a minha vida tinha acabado passei um longo período chorando em cima do teu travesseiro na tentativa de engolir um pouco do seu cheiro e não te ver sair de mim. Durante esse tempo eu tive muita vergonha de admitir que nesses meses que seguiram a nossa despedida eu fui me despedaçando aos poucos. Logo eu, cheia de discursos sobre segurança e independência, perdi o rumo e estremeci quando me dei conta de que sua mão não segurava mais a minha. Ao longo desse período eu estive tomada por uma cegueira interna, eu via o mundo, mas não via as cores, a vida ficou com um tom sem graça em preto e branco, como se retratasse fielmente o luto que se alastrava dentro de mim. Eu morri um pouco quando você assassinou o nosso amor. Mas tudo bem, porque é isso que acontece quando algo que a gente ama muito morre, não é? Uma parte nossa vai junto, mas as outras ficam.

Quando eu me dei conta do buraco no qual estava me enfiando decidi que era hora de me reerguer. Não dava mais para eu passar os dias me afundando na imensidão daquela cama vazia, eu precisava abrir mão daquele momento pra viver novas histórias, eu precisava te deixar ir, pra outras pessoas entrarem. Então eu escrevi um bilhete, colei no espelho e mantive um ritual diário de devora-lo com os olhos todos os dias depois de levantar. Nesse meio tempo eu mudei o corte, tingi o cabelo, sai um uns caras da faculdade e enchi a cara toda sexta-feira, sagradamente. Teve alguns domingos que eu chorei, confesso. Durante aqueles minutos em que o futebol toma conta da tv e a depressão da gente, eu sentia a sua falta. E chorava baixinho tentando não assustar o que me sobrava de coragem até pegar no sono, depois ficava tudo bem. Segunda é sempre um bom dia pra gente recomeçar, de novo. Eu recomecei muitas vezes, moreno, muito mais do que você pode imaginar.

Eu recomecei todas as vezes em que te deletei das redes sociais e logo em seguida procurei um outro jeito de te procurar antes de recomeçar de novo. Recomecei em alguns textos pra caras sem graça que eu conheci na balada, mas depois eu vomitava em outros bem mais bonitos o que restava de nós dois aqui dentro. Recomecei quando mudei o guarda roupa, embora no minuto seguinte tenha espirrado seu perfume nas roupas novas pra não esquecer teu cheiro. Recomecei, e voltei atrás antes de jurar mais uma vez que eu ia te deixar partir de vez. E antes que você fosse eu te puxava tentando recuperar um resquício de chance que ainda tivéssemos. Não tínhamos, nenhuma. Mas é tão difícil de aceitar.

Não lembro se foi no inverno ou na primavera, talvez, só talvez, tenha sido no verão que uma brisa forte fez o bilhete voar pelo quarto e se perder naquele caos externado do meu coração. Dali em diante eu deixei de levantar pensando em te esquecer. Deixei de repetir olhando o meu reflexo que você era um passado que não podia ser presente - nem futuro. Deixei o hábito de me orgulhar ao fim do dia por não ter te stalkeado nenhuma vez. Deixei de deixar a minha vida girar em torno de superar a nossa história e acabei superando. Justo da maneira mais improvável, justo quando eu abri mão de lutar contra a sua existência dentro de mim.

Quando aquele bilhete sumiu, com ele foi embora a minha obrigação de ser forte, de não pensar em você e de não te procurar. Eu aceitei que precisava sentir tudo aquilo que ainda havia em mim e fui sentindo até não sobrar nada. No fundo, a ideia de te superar só fazia com que eu me lembrasse cada vez mais de você, aos poucos outras obrigações foram tomando conta do meu tempo e eu fui parando de lembrar da gente. A rotina deixou de ser levantar e correr pro espelho e passou a ser aquele café amargo saboreado com o coração calmo. Acontece que, por mais irônico que seja, foi quando eu desisti de fazer aquilo tudo dentro de mim ir embora, que eu me abri pra um novo momento sem nem perceber o que estava acontecendo. Não era a minha intenção, ao menos não consciente, e foi assim que deu certo. Eu deixei você sair de mim sem que me desse conta do que estava fazendo, porque ali, depois de todos aqueles meses e tentativas falhas de recomeçar, eu já não sabia de mais nada, nem queria o que quer que fosse, eu só estava vivendo um dia após o outro tentando não tropeçar no meu próprio pé e a caminhada foi dando certo. E eu fui, pela primeira vez em muito tempo, feliz sem me importar se você sabia ou não - é que naquele momento você não fazia mais diferença. Meu sorriso era só meu e eu não precisava provar nada para ninguém. Ao desistir de lutar contra a gente eu estava insistindo em mim e foi isso que me salvou.

E não, eu não to te dizendo isso tudo pra você vir me procurar desesperado arrependido de ter desistido da gente. Nem porque eu quero que você sofra me vendo feliz e completa de um jeito que eu sei que você nunca acreditou que eu ficaria ou porque eu espero conseguir, desse jeito, me vingar de tudo o que você fez. Eu to te falando tudo isso pra você saber que não precisa mais trocar de calçada quando me encontrar na rua, eu não vou avançar no seu pescoço e nem cuspir na sua camiseta importada. Eu não vou fazer escândalo e armar barraco ou chorar descontroladamente, fica tranquilo, porque, rapaz, é capaz que eu nem te reconheça mais.

6 comentários:

  1. Nossa que texto lindo, serio eu amei, e me identifiquei muito, as vezes sofremos por pessoas que matam o amor, aquele amor que jurou ser eterno, mas como o titulo me esqueci quando eu esqueci de te esquecer, quando eu resolvi fazer isso eu esqueci e hoje estou muito bem, e ele nem precisa mas mudar de calçada, porque nem é talvez é certeza porque nem me lembro mais dele
    beijos linda http://www.blogdaxavier.com.br/

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  2. Meu Deuus. Que texto perfeito ������������������

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  3. Nossa seus textos são perfeitos, um melhor que o outro. Parabéns

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.