Nova Perspectiva

15 de julho de 2015

Talvez não faça sentido nenhum, mas eu preciso sentir

Via reprodução
Eu sei que ele não era o cara certo, que tava longe de ser o príncipe encantado ou o homem dos sonhos de qualquer mulher, sei que ele não me merece e que chorar descontroladamente não vai traze-lo de volta, nem vai fazer que o tempo volte e eu tenha mais uma chance de mudar o final dessa história, nem adiantaria, tem coisas que são como têm que ser. E a gente não era pra ser nada além de algumas lembranças bonitas de algo que podia ter dado certo e acabou do jeito mais doloroso possível. Eu sei, também, que por mais que eu tenha fantasiado e criado momentos perfeitos na minha imaginação nada daquilo vai virar real, porque ele foi embora quando a coisa toda ficou apertada demais, pegou a mochila no meio da noite e sem deixar nenhum bilhete de despedida pulou a janela e foi em busca de aventuras mais leves e menos eternas. Ele fugiu quando a gente deu sinal de que ia ficar mais sério do que tínhamos programado. A coisa toda tava fugindo do controle, exatamente do jeito que eu torcia pra que fugisse, só que ele não torceu comigo.

Eu sei que desejar que amanhã não chegue não muda o fato de que as horas continuam passando e o relógio continua tiquetaqueando na parede da sala e o dia já vai raiar e eu ainda estou aqui, na mesma posição em que eu estava quando gritei o nome dele exaustivamente até perceber que a casa estava vazia e eu estava sozinha. Eu sei que parece loucura fechar os olhos e ignorar que já é segunda-feira e que eu preciso trabalhar. Hoje não, sussurro para a imensidão solitária que preenche os quatro cantos do meu quarto e trago o que restou do seu cheiro torcendo pra que a bateria do mundo acabe e eu possa dormir por mais alguns dias. Eu sei que eu deveria tomar um banho gelado e passar um café amargo, colocar uma base para disfarçar essas olheiras de quem chorou a Amazônia inteira e ajeitar um vestidinho bonito pra parecer que tá tudo bem. Mas não tá, entende?

Não tá bem, porque eu depositei todas as minhas fichas e o meu coração nessa história e ele foi embora sem nem me avisar que estava indo. Não tá porque eu fiquei cega diante todo aquele teatro de final feliz e o cacete à quatro. Não tá porque eu amei sozinha e não é fácil desamar alguém que a gente queria que tivesse sido tudo pra sempre. Não tá. Eu sei que eu deveria luta pra que as coisas melhorassem e que passar a manhã com a cara enfiada no travesseiro não vai fazer o rumo dessa história mudar, eu sei que ele não foi o único e nem vai ser o último, eu sei. Percebe? Eu sei de cor tudo o que esses manuais de autoajuda falam dessas histórias unilaterais que terminam quando o lado desprendido resolve soltar a corda, mas o nó tá em mim, tá aqui no meio do meu pescoço impedindo que eu consiga respirar e eu não quero fazer ele sair. Eu sei que eu devia colocar o dedo na garganta e por pra fora, mas eu prefiro desligar o alarme e virar pro lado e torcer pra que o telefone não toque porque hoje eu não to pra ninguém, nem pra mim. Eu sei que essa história foi toda escrita do jeito errado, mas era desse jeito que eu gostava e acreditava que de alguma maneira ia dar certo. Mas não deu.

Não que eu não pudesse prever que daríamos nesse beco sem saída e que eu acabaria chorando debruçada na ausência daqueles braços envolvendo o meu corpo, era óbvio pra qualquer um que nos visse de fora, por mais que eu quisesse acreditar que vivíamos um romance desses dignos do Oscar, tava na cara que o nosso amor combinava mais com filme pirata, desses cheios de corte que travam na metade e ninguém descobre o final. A gente não tinha como virar outra coisa, por mais que eu te deixasse me enganar com aquela ladainha toda e me forçasse a acreditar que eu não tava amando sozinha, uma hora a verdade ia aparecer, uma hora alguma coisa ia acontecer pra desestabilizar o que nunca esteve estabilizado. Então você foi embora, como já era imaginado desde o começo desse causo todo, você foi embora porque tudo tava ficando cansativo e sem graça e rotineiro e o seu palco pedia uma plateia maior, porque por mais que fosse legalzinho aquela coisa que a gente tinha, você nunca quis se jogar de cabeça. Você nunca acreditou que aquilo pudesse acabar em felizes para sempre.

Eu sei que talvez não faça sentido nenhum porque o mundo é muito grande e ainda tem muita história bonita preu viver, só que eu preciso sentir. Eu preciso esvaziar todo esse aperto que tá esmagando os meus órgãos, preciso esquecer que eu ainda to viva pra me lembrar que a vida ainda pode dar certo. Eu sei que talvez não faça sentido nenhum, mas eu preciso vestir essa camiseta que ele esqueceu e vomitar pelos olhos toda a dor que eu sinto com a morte prematura do romance que eu tanto queria que virasse best-seller. Eu preciso sentir que eu to na merda, mesmo sabendo que daqui a pouco vai estar tudo bem, eu preciso sentir essa saudade corroendo toda a minha pele e essa vontade de gritar como se o mundo estivesse acabando, porque de certa forma tá, entende? É que um mundo que eu tinha projetado está desmoronando e eu vou ter que reconstruir tudo de novo, mas sem uma parte da história. Sem a minha parte favorita e isso arde igual queimadura de terceiro grau. Então me deixa arder até não ter mais nada aqui dentro. Me deixa arder até formar casquinha e eu perder o medo do sol. Me deixa arder porque ele foi embora e nem me deu um beijo de despedida e eu não quero fingir que isso não importou em nada, porque importou, tá importando, então deixa eu viver essa importância mesmo que pareça ridículo, deixa eu sentir e chorar e berrar até não ter mais o que fazer, até não importar mais e eu querer levantar daqui por mim mesma. Tá bem? Me deixa ficar assim, só até eu perceber que não dá pra sobreviver desse jeito e criar força pra virar esse jogo. Me deixa que eu vou fechar a janela e apagar a luz até o meu despertador biológico tocar e eu aceitar que tá na hora de acordar, mas agora não, agora eu só quero voltar a dormir e sonhar que ele ainda vai voltar pra mim, mesmo sabendo que ele nunca mais vai vir.

Um comentário:

  1. Aquelas histórias que são vividas sozinhas, mesmo tendo outros personagens.. Escreve demais, Gabi!

    www.eurenata.com

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.