Nova Perspectiva

1 de julho de 2015

Pois é

Via reprodução
Olho as nossas últimas mensagens trocadas, é sobre alguma música que falava muito mais da nossa relação do que a gente tinha coragem de dizer. E lá estão as palavras que selaram o nosso fim: pois é. Pois é o que, cara? Pois é coisa nenhuma, pois é nada. Pois não somos. Nunca fomos e nem seremos qualquer coisa que seja alguma coisa.

Atravesso a cidade numa noite fria em um banco rasgado de um ônibus lotado e te busco no reflexo que o vidro faz. Tem uma tonelada de coisas que eu nunca consegui te dizer entaladas bem no meio da minha garganta. Tem uma tonelada de saudades da história que a gente não viveu impedindo que eu respire. E eu não consigo lembrar do dia em que a gente foi algo mais do que um "pois é" no fim de um diálogo que podia ter sido tudo, mas não foi. A gente era esse grito mudo de covardia misturada com ego inflado que não se permita admitir que talvez quiséssemos que desse certo. Queríamos, muito, se eu não me engano. Pelo menos era isso que os nossos olhos confessavam sempre que esbarravam um no outro.

Embaço o vidro como se com o ar saísse, também, a minha alma e observo-a evaporar com a brisa que bate insistentemente. Nada anda fazendo muito sentido. Não sei mais quanto tempo faz que você foi embora, nem a quantos dias eu não durmo, só sei que eu preciso arranjar um jeito de te vomitar. O nosso amor veio estragado, com o prazo de validade vencido, e nos deixou intoxicados. O problema, cara, é que eu não consegui ser medicada. Meu convênio venceu e o sus não atende casos como esse. E eu não consigo entender qual era o medo que a gente tinha de deixar a verdade saltar da boca. A gente se calou com despedidas antecipadas e se privou de falar o que quer que fosse sem razão alguma que justificasse o aborto do nosso amor. Eu não consigo pensar em nenhuma vez que nos esforçamos pra tentar berrar alguma coisa que fizesse mais sentido que aqueles "pois é" quando a história envolvia sentimento. Pois era o que? Medo de falar? De gostar? De querer ficar pra sempre? Pois era alguma coisa? Porque eu acreditava que sim.

De um jeito meio apaixonando, meio romantizado, eu enxergava aqueles nossos “pois é” como um eu te amo vendado de todas as formas possíveis. E era isso que eu dizia sempre que verbalizava essas duas palavras com certo tom de indiferença. Pois era amor da minha parte, eu só não queria ser a primeira a admitir. Lá no fundo eu acreditava que cedo ou tarde as coisas iam se ajeitar sozinhas e sem que precisássemos confessar nada. Eu achei que em algum momento da vida a gente ia casar, ter filhos e um casal de pastor alemão. Eu acreditava que assim como é nos filmes, nós também terminaríamos juntos. Mas você já tem um novo alguém. Da forma mais prematura possível você conseguiu preencher o lado da cama que era meu e aprendeu a proclamar tudo o que você nunca teve coragem de direcionar pra mim. Agora, você emoldura nas redes sociais imagens com juras e promessas de uma eternidade infinita e declara para o mundo o que você nunca conseguiu declara sussurrando nos meus ouvidos.

O ônibus freia e eu me dou conta de que to chegando em casa e mais uma vez você foi tudo em que eu consegui pensar no caminho de volta. Você e essa saudades doentia que não cura de maneira alguma. Suspiro. Preciso levantar, mas não quero e sinto o peito apertar quando decido que tá na hora de deletar essas conversas. De duas uma: ou a gente não era amor ou não era de verdade e, nesse caso, nenhuma das alternativas são boas, sendo assim o melhor que eu faço é me enfiar no corredor antes que eu perca o meu ponto. A gente você já perdeu. 

Pois é.

3 comentários:

  1. Pelos deuses! Você não cansa de escrever esses textos, não? Aida bem, porque eu não me canso de ler. "Pois é", essas palavras acabam com tudo tantas vezes que nem dá pra contar. Pois é.

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  2. Nossa, como me lembrei da minha adolescência. .. foi como um flash back daquelas paixonites que nunca deram certo... bjsss

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  3. Uau! Gabi, seus textos estão ficando cada vez melhores. Já decidi que esse é o meu favorito até agora. Quem nunca passou um caminho de volta remoendo sentimentos e tendo conversas imaginárias? Sério, quem nunca?

    "Pois é coisa nenhuma, pois é nada. Pois não somos." Amei!
    Beijinhos!

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.