Nova Perspectiva

11 de julho de 2015

Os riscos que a gente corre são por nossa conta

Via reprodução

Não tava bom, no fundo a gente sabe, mesmo que nos falte coragem pra admitir que não dava mais porque o pneu arriou no meio do caminho e alguém ia ter que pular fora pro carro seguir viagem. A gente já tinha acabado, todo mundo percebia, estava na cara que entre nós dois tinha sobrado qualquer coisa menos amor, e eu sei que talvez você nunca assuma isso, teu orgulho não vai permitir e eu entendo, juro. Mas em um relacionamento ninguém erra sozinho. Se tivesse dando certo eu não ia procurar em outros braços o abrigo que me faltava, eu não ia buscar outro sorriso pra completar o meu e nem me permitiria derreter de amores por um novo amor. Se a gente tivesse dando certo eu não ia me jogar com o primeiro cara errado nessas rodovias de terra. Não que a culpa seja sua, não é. Mas não jogue toda a responsabilidade do nosso fracasso em cima de mim.

Eu errei, sim, ao todo foi bem mais que você, errei quando abri a porta e saltei do carro sem te dar nenhum aviso prévio. Eu errei quando continuei com aquele teatro mal interpretado de casal feliz sabendo que o teto de casa estava prestes a desabar. Eu errei quando acreditei que um amor podia curar as falhas de outro, porque, embora eu tenha mentido muito, isso era verdade: eu não tava sabendo nos curar sozinha e acabei usando o merthiolate da pior marca. Eu errei quando me permiti te machucar com toda aquela fantasia de filme mexicano que eu tinha criado na minha cabeça, mas é que àquela altura a gente já tinha trocado feridas demais e eu não parei para analisar as consequências de mais um ou dois hematomas na nossa história. Eu errei quando decidi que ia lavar as mãos e desistir da gente, e depois quando insisti em empurrar a porta errada. Tava na cara que ia dar merda, e deu. Dessas que deixam a casa inteira cheirando e não tem aromatizante de ar que dê jeito. E eu tive que sentir sozinha.

Larguei tua mão e senti, em seguida, a agonia de também largarem da minha. Joguei meu mundo para o ar e fui jogada do mundo em que eu tentei entrar e perdi o meu caminho de volta. A natureza te esbofeteia com a mesma força que você usa para esbofetear alguém, e esse tapa doeu. Tá doendo, ainda, mas vai passar. Eu sei que vai. Agora as cicatrizes tão em dobro e eu não tenho ninguém pra cuidar de mim e quer saber? Melhor assim. Sinto muito por saber que eu te fiz sentir muito e desperdicei tudo isso. Sinto muito por ter sentido tanto por quem menos merecia. Mas é só o que eu posso fazer agora: sentir.

Eu arrisquei quando decidi cortar o tempo da borracharia e cair na estrada sabendo que as condições não eram boas, que o tempo ia fechar e a pista tava toda esburacada. Eu arrisquei, também, quando abri a porta e saltei do carro ainda em movimento pra me aventurar em rotas desconhecidas. Deu ruim, a gente e a minha fuga. Mas tudo bem, os riscos que a gente corre são por nossa conta, não dá pra transferir pra ninguém, nem pra negociar, e o meu saldo, coitado, tá no vermelho. Agora não é hora pra querer voltar atrás ou chorar em cima do extrato das consequências das minhas escolhas. Tá feito, tudo errado, garranchado e tremido, mas do jeito que eu escolhi escrever o meu destino. Pra resolver essa dívida com o meu coração eu só preciso criar uma estratégia pra sair do vermelho, limpar meu nome e recomeçar do jeito certo. Sozinha, mas com a conta limpa.

Um comentário:

  1. Nossas escolhas tem 50% de chance de dar certo e 50% de dar errado
    Para toda escolha há uma consequência :(
    adoro seu blog
    bju Gabi


    http://karinapinheiro.com.br/bicho-papao/

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.