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Me deixa sangrar um pouco mais

Via reprodução
As madrugadas ficaram mais longas sem a sua mão deslizando pela minha coxa enquanto eu me desvencilhava com uma risada baixa avisando que em algumas horas o despertador ia tocar e não podíamos nos atrasar e você silenciava a minha ânsia em pegar no sono com um beijo longo e quente e apaixonado. Os dias parecem mais nublados e sem graça com a falta do seu sorriso iluminando o inverno que me assombra do lado de fora. Você levou os nossos discos de vinil, a coleção de taças de vinho e o meu verão, junto da sua bagagem. As manhãs estão mais tristes sem aquela sua mania de cantar assoviando ao mesmo tempo em que preparava um café forte e amargo pra despertar os nossos corações e eu fazia a mesa com aqueles pães italianos da padaria aqui em frente. Às vezes, quando o alarme toca e o estômago ronca, eu coloco uma jaqueta e atravesso a rua e fico olhando lá pra dentro sentindo o cheiro das nossas gargalhadas enquanto lutávamos pela última fatia de queijo pra montar mais um lanche antes do trabalho e choro parada no meio da calçada enquanto as pessoas passam apressadas e desatentas, até que o alarme toca e eu volto com as mãos vazias e a mente repleta de lembranças que não querem ser esquecidas.

Almoço mais um prato de saudades enquanto redijo relatórios intermináveis sobre alguma coisa que eu já não sei direito o que é. A vida se tornou corriqueira desde o dia em que você anunciou que partiria e me partiu em mil e um pedaços. Você olhava fixamente para os meus olhos como se pedisse desculpas por ter mudado de ideia quanto ao nosso amor e eu procurava algum indicio, qualquer que fosse, de que aquilo não passava de um surto inexplicável e que logo tudo voltaria ao normal. Mas você foi, pegou a mala, colocou nas costas sem me dar mais explicações e virou a esquina sem olhar pra trás e eu fiquei engolida na ausência da sua vida na minha. Você se foi, sem mais nem menos, sem nem ter deixado pistas que antecipassem a sua partida, só acenou com a cabeça como um velho amigo faria e saiu pela porta da frente deixando pela casa o eco da sua voz pedindo pra que eu fosse feliz com alguém que pudesse me fazer ser e eu ainda indago como é que de repente você já não podia mais.

Vou me afogando aos poucos no que sobrou de você. Na foto que ficou no porta-retrato da mesinha de centro, naquele moletom desbotado que você esqueceu no fundo do armário, no seu cheiro que ainda não saiu do travesseiro, naquela música que a gente dançava pela casa com a garrafa de vinho na mão. Vou arrancando a casquinha do machucado que você me fez porque isso é tudo o que me sobrou de nós: a dor que insinua disfarçadamente que você ainda mora em mim. E eu não estou pronta pra desalocar o coração e sorrir com o canto dos pássaros no final da tarde. Eu não estou pronta pra trocar a fechadura e deixar de acreditar que você ainda volta, qualquer dia, mesmo que seja só pra pegar o que acabou ficando espalhado pelas gavetas da cômoda e que durante esse resgate dos seus pertences você se perca um pouquinho nas lembranças do casal que a gente já foi. Ainda não quero esquecer a buzina do seu carro anunciando que hoje tem pizza e que pra amanhã tem nós dois com uma ressaca filha da puta curada com amor. Não posso, não agora, deixar que esse buraco feche e que também acabe em mim. Não estou pronta pra deixar a nossa história ser enterrada no cemitério de amores acabados, mesmo que ela já esteja morta. Então eu sinto.

Sinto que o mundo está desabando e que eu estou sozinha pra segurar todo esse escombro de um sentimento rachado por todos os lados. Sinto que arde e queima e sangra e esse é o único jeito de eu lembrar que de alguma maneira foi amor e de não esquecer que a gente queria que fosse pra sempre. E ser, mesmo que seja pra sempre dor. Sinto como se pudesse tragar a ilusão de que é você quem vem me curar, mesmo sabendo que eu nunca mais vou ouvir sua chave destrancar a porta depois de um dia exaustivo no trabalho. Sinto, sinto muito, sinto tudo, porque é só o que eu consigo fazer agora. Eu sei que um dia a ferida estanca e o ponto final aparece, mas eu preciso ter uma hemorragia pra passar, então deixa eu sangrar um pouco mais.
Me deixa sangrar um pouco mais Me deixa sangrar um pouco mais Reviewed by Gabriela Freitas on 00:05 Rating: 5

Um comentário:

  1. Eu sei que um dia a ferida estanca e o ponto final aparece, mas eu preciso ter uma hemorragia pra passar, então deixa eu sangrar um pouco mais.

    que coisa mais dolorosamente linda. È bem desse jeito mesmo, :T

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.

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