Nova Perspectiva

27 de julho de 2015

Me deixa sangrar um pouco mais

Via reprodução
As madrugadas ficaram mais longas sem a sua mão deslizando pela minha coxa enquanto eu me desvencilhava com uma risada baixa avisando que em algumas horas o despertador ia tocar e não podíamos nos atrasar e você silenciava a minha ânsia em pegar no sono com um beijo longo e quente e apaixonado. Os dias parecem mais nublados e sem graça com a falta do seu sorriso iluminando o inverno que me assombra do lado de fora. Você levou os nossos discos de vinil, a coleção de taças de vinho e o meu verão, junto da sua bagagem. As manhãs estão mais tristes sem aquela sua mania de cantar assoviando ao mesmo tempo em que preparava um café forte e amargo pra despertar os nossos corações e eu fazia a mesa com aqueles pães italianos da padaria aqui em frente. Às vezes, quando o alarme toca e o estômago ronca, eu coloco uma jaqueta e atravesso a rua e fico olhando lá pra dentro sentindo o cheiro das nossas gargalhadas enquanto lutávamos pela última fatia de queijo pra montar mais um lanche antes do trabalho e choro parada no meio da calçada enquanto as pessoas passam apressadas e desatentas, até que o alarme toca e eu volto com as mãos vazias e a mente repleta de lembranças que não querem ser esquecidas.

Almoço mais um prato de saudades enquanto redijo relatórios intermináveis sobre alguma coisa que eu já não sei direito o que é. A vida se tornou corriqueira desde o dia em que você anunciou que partiria e me partiu em mil e um pedaços. Você olhava fixamente para os meus olhos como se pedisse desculpas por ter mudado de ideia quanto ao nosso amor e eu procurava algum indicio, qualquer que fosse, de que aquilo não passava de um surto inexplicável e que logo tudo voltaria ao normal. Mas você foi, pegou a mala, colocou nas costas sem me dar mais explicações e virou a esquina sem olhar pra trás e eu fiquei engolida na ausência da sua vida na minha. Você se foi, sem mais nem menos, sem nem ter deixado pistas que antecipassem a sua partida, só acenou com a cabeça como um velho amigo faria e saiu pela porta da frente deixando pela casa o eco da sua voz pedindo pra que eu fosse feliz com alguém que pudesse me fazer ser e eu ainda indago como é que de repente você já não podia mais.

Vou me afogando aos poucos no que sobrou de você. Na foto que ficou no porta-retrato da mesinha de centro, naquele moletom desbotado que você esqueceu no fundo do armário, no seu cheiro que ainda não saiu do travesseiro, naquela música que a gente dançava pela casa com a garrafa de vinho na mão. Vou arrancando a casquinha do machucado que você me fez porque isso é tudo o que me sobrou de nós: a dor que insinua disfarçadamente que você ainda mora em mim. E eu não estou pronta pra desalocar o coração e sorrir com o canto dos pássaros no final da tarde. Eu não estou pronta pra trocar a fechadura e deixar de acreditar que você ainda volta, qualquer dia, mesmo que seja só pra pegar o que acabou ficando espalhado pelas gavetas da cômoda e que durante esse resgate dos seus pertences você se perca um pouquinho nas lembranças do casal que a gente já foi. Ainda não quero esquecer a buzina do seu carro anunciando que hoje tem pizza e que pra amanhã tem nós dois com uma ressaca filha da puta curada com amor. Não posso, não agora, deixar que esse buraco feche e que também acabe em mim. Não estou pronta pra deixar a nossa história ser enterrada no cemitério de amores acabados, mesmo que ela já esteja morta. Então eu sinto.

Sinto que o mundo está desabando e que eu estou sozinha pra segurar todo esse escombro de um sentimento rachado por todos os lados. Sinto que arde e queima e sangra e esse é o único jeito de eu lembrar que de alguma maneira foi amor e de não esquecer que a gente queria que fosse pra sempre. E ser, mesmo que seja pra sempre dor. Sinto como se pudesse tragar a ilusão de que é você quem vem me curar, mesmo sabendo que eu nunca mais vou ouvir sua chave destrancar a porta depois de um dia exaustivo no trabalho. Sinto, sinto muito, sinto tudo, porque é só o que eu consigo fazer agora. Eu sei que um dia a ferida estanca e o ponto final aparece, mas eu preciso ter uma hemorragia pra passar, então deixa eu sangrar um pouco mais.

Um comentário:

  1. Eu sei que um dia a ferida estanca e o ponto final aparece, mas eu preciso ter uma hemorragia pra passar, então deixa eu sangrar um pouco mais.

    que coisa mais dolorosamente linda. È bem desse jeito mesmo, :T

    ResponderExcluir

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.