Nova Perspectiva

20 de julho de 2015

Descobri que você não era o maior amor da minha vida

Via reprodução
Aquele dia em que eu te vi passeando com os braços dados aos de outra mulher cheguei a pensar que eu não suportaria, era demais, tudo aquilo, sabe? Te ver ir embora sem poder fazer nada a não ser assistir de camarote sua vida seguindo um novo rumo. Vocês iam rindo enquanto atravessavam juntinhos a rua naquele calor matinal do inferno e eu me perguntava o que é que ela tem que eu não tenho? Hein? O que é que ela tinha que te fez ficar, cara? Porque naqueles segundos em que abaixei a cabeça para que não me notassem, eu não consegui lembrar de nenhuma vez em que você dormiu comigo e eu não acordei sozinha. E então, agora, vocês estavam andando juntinhos depois de tomar café da manhã na minha padaria favorita como se isso não tivesse problema algum, como se nada que tivesse acontecido antes importasse. De repente você resolveu que queria acordar ao lado dela, de alguma maneira ela fez você sentir algo que eu nunca consegui fazer, e eu permaneci estática observando aquela cena como se fosse tudo não passasse de uma ilusão de óptica enquanto lutava contra as lágrimas que rebeldemente fugiam dos meus olhos.

Eu cheguei a culpa-la algumas vezes, coitada, espalhei por aí que essa história de vocês era trabalho feito para te prender, alguma macumba das bravas ou uma boa chave de perna, sei lá, podia ser qualquer coisa menos amor de verdade. Isso eu não ia suportar. Na ânsia de me convencer de que tudo não passava de um mero engano e que logo cê se daria conta do erro que tinha cometido e voltaria para mim, eu fui me enganando com desculpas que eu mesma inventava só pra não ter que assumir o óbvio. Era mais fácil aceitar que ela tinha te enfeitiçado do que engolir a ideia de que você tinha se apaixonado, mesmo que a primeira hipótese não fizesse sentido algum. Por muito tempo mantive suas redes sociais na barra de favoritos e acompanhei cada passo que vocês davam, da viagem pra Angra até a primeira briga, eu sempre soube de tudo antes mesmo que alguém me contasse, foi como se naquele período eu tivesse desistido da minha vida pra poder viver da sua, ainda que de longe. Eu tava tão cega que nem conseguia perceber que você não merecia todo aquele meu desgaste emocional, cê nunca quis somar comigo, a nossa conta não batia, porque só eu me doava. A gente nunca teve uma história, de fato, e talvez fosse isso que mais me incomodava.

Eu tinha dado tudo de mim o tempo inteiro na esperança de te convencer de que eu era um bom lugar pra morar, deixei que você virasse minha vida de ponta-cabeça pra ver se dessa maneira cê parava de fugir da gente, cheguei até a trocar meu vinho importado pela sua cerveja barata do mercadinho da esquina. Cê nunca ligou muito pra todas as minhas tentativas e nem se esforçou pra tentar alguma coisa que fosse além daquelas madrugadas no meu quarto, eu emoldurei no meu coração o seu retrato e você não tinha nem uma 3x4 minha escondida na carteira. Moldei meus gostos do teu e o seu corpo no meu e nem isso foi capaz de despertar em você o que ela despertou e isso me irritava. Eu fiz de tudo, rapaz, e ela nem sabia cantar a sua música favorita e mesmo assim você a amou de um jeito que nunca chegou perto de me amar, como rapaz? Como? Eu ficava me perguntando. Como você pode amar alguém que não sabe nem o hino do seu time? Como pode escolher alguém que não era eu depois de tudo o que eu já tinha provado pra você? Eu fui me afundando dia após dia na solidão que o seu lado na cama gritava, enquanto você caminhava de braços dados com o amor da sua vida e eu sentia um vazio enorme no canto esquerdo do peito e uma vontade absurda de vomitar a sua ausência.

Acho que àquela altura eu já nem te amava mais, eu só tava com o ego ferido por ter apostado todas as minhas fichas em um jogo que já tava acabado. Eu só tava com o orgulho doído por ter sobrado nessa história. Depois de um tempo, quando o breu da despedida e da amargura foi dando lugar pra alguma coisa mais leve, eu comecei a ver as coisas por um ângulo diferente. Na minha fantasia de conto de fadas você era o príncipe encantado e ela a bruxa má, só que na vida real as histórias são um pouco menos óbvias. Você nunca foi o meu cara do cavalo branco, nunca me viu como uma opção de futuro ou uma princesa encantada, na tua cabeça todo aquela coisa toda não passava de um lance bonito e intenso e estaria tudo bem se tivesse sido assim na minha também, mas não foi, aqui dentro você era aquilo que me faltava para eu estar completa, era o que eu precisava pra ser feliz e então apareceu alguém que acelerou a separação, que mais cedo ou mais tarde aconteceria, e cê foi com ela porque, do jeito mais sincero e espontâneo, você se apaixonou e nada que eu tentasse fazer mudaria isso. E eu sofri, como era de se esperar, e chorei, e esperneei, mas foi passando, sabe? Eu não morri de amor, nem de decepção, nem de mágoa. Eu fui curando minhas feridas e fazendo com que as cicatrizes fossem sumindo e teve um dia em que eu encontrei aqui dentro de mim o que você nunca conseguiu me dar e foi nesse dia, também, que eu descobri que você não era o maior amor da minha vida. Graças a Deus.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.