Nova Perspectiva

19 de junho de 2015

Um texto pra sua melhor amiga

Via reprodução
Dia desses bateu uma bad daquelas, passei o dia deitada na sala de pijamão e cabelo bagunçado, assistindo ora um desenho animado, ora um dramalhão mexicano, ora chorando em silêncio. Tava sozinha demais pra quem aprendeu na marra a se bastar, orgulhosa pra pedir socorro só me restou agarrar o travesseiro e jorrar a água que falta na Cantareira pelos olhos. Lá pelas vinte horas a campainha tocou, fiquei quietinha pra ver se seja lá quem estivesse ousando interromper minha TPM fora de hora desistia, que nada, do outro lado uma voz fina gritou "eu sei que você tá aí e sei que você está mal, abre logo a porta que eu trouxe sorvete"Como ela sabia? Sei lá, mas ela sempre sabe. A gente devorou um pote de chicabom e quase um engradado de cerveja inteiro. Ela nem gosta de beber, mas segundo o dicionário dos pés na bunda eu precisava de um porre. Dica besta, eu só precisava mesmo era da minha melhor amiga, lá pela madrugada eu já nem lembrava mais que tinha chorado quase o dia todo.

Outra noite ela fez de novo, já passava das três da manhã e eu não conseguia dormir. Tava exausta, tinha sido uma semana difícil, com muita prova, muito trabalho, e aquele beijo de despedida que não saía da minha cabeça, mas nada que eu fizesse me ajudava a pegar no sono. Depois de revirar muito na cama o celular tocou, atendi meio monossilábica e do outro lado da linha ela sussurrou "Você sabe que devia estar dormindo porque amanhã tem aquela sua prova difícil e a apresentação da monografia, mas eu sei que você só quer chorar. Então chora que eu to aqui do outro lado, mas meu coração tá pertinho do seu e a gente divide essa dor pra acabar mais rápido". E eu chorei até a dor ficar pequenininha. Como ela sabia? Sei lá, mas ela sempre sabe.

Tem semanas que a gente mal se fala, é muito trabalho, a faculdade ocupando muito tempo e o dia que não tem hora suficiente. Teve uma época em que eu até achei que a gente ia se afastar, sabe como essas coisas são, era amizade da adolescência e os nossos caminhos estavam ficando tão diferentes, eu ficava esperando pelo momento em que a gente ia se olhar sem se ver, tive tanta amizade que acabou assim. Você se afasta sem mais nem menos e a distância fica grande demais pra voltar atrás, mesmo que seja só pra dar um "oi". Eu tinha medo, porque, no fundo, achava que dali em diante cada uma ia traçar a sua história e podia ser que não nos encaixássemos mais, talvez ela arranjasse uma peça mais bonita, talvez eu encontrasse alguém mais engraçado, talvez já não fôssemos o bastante pra ser tudo o que éramos. Eu sabia que corríamos o risco de nos despedirmos sem dizer adeus. Risco alto. Tem gente que troca de amigos como troca de sapato. A diferença é que ela nunca foi minha amiga, nem eu a dela, somos melhores amigas e isso fez toda a diferença. Passou tempo e a maioridade chegou e o que era pra acontecer não aconteceu. A gente continuou uma pela outra, mesmo que sem se ver todo dia, mesmo que sem se falar toda hora. De um jeito ou de outro a gente sempre arranjou algum motivo pra tá perto, mesmo que fosse só saudade.

Às vezes não nos falamos por um mês, mas quando meu mundo desaba ela é a primeira a perceber. E é a primeira a descobrir o que eu tenho. E o porquê eu tenho. Nem sempre diz o que eu quero ouvir, na verdade, ela costuma mesmo é falar o que eu preciso ouvir. Dói um pouquinho, é estranho essa coisa de ter alguém que te conhece tão bem quanto você mesmo (até melhor, se bobear).

"Você está querendo enganar a mim ou a você?" fala rindo enquanto desconstrói mais uma das mentiras que eu inventei para os outros acreditarem que está tudo bem, tá sim "tá coisa nenhuma, você nem entrou no whatsapp hoje. E aquela última música que você ouviu? Não era aquela que ele dedicou pra você? Larga de ser babaca, ele não te merece!" E não merece mesmo, eu sei, mas ela também sabe que eu não vou desistir tão fácil, porque se eu desistisse não seria eu. E eu sei que ela ainda vai estar aqui se eu cair de novo, sem nem que eu precise pedir por socorro. Nossos caminhos até se separaram, depois do colégio ela quis biológicas e eu quis humanas, ela foi pra um lado e eu fui pro outro, ela escolheu namorar e eu me divertir um pouco (ou esperar pelo cara certo, antes que ela me desminta). Mas isso nunca impediu que a gente se encontrasse várias vezes. E os anos continuam passando, e ainda tem alguns puxões de orelhas, algumas poucas brigas e muito, mas muito, amor.

4 comentários:

  1. Gabi, adoro seu blog. Me emocionei com o texto.
    Comecei a publicar meus textos recententemente da uma olhadinha lá https://duranasquedas.wordpress.com .
    Beijos e sucesso.

    ResponderExcluir
  2. Daí você lê esse texto e chora litros... Lembrando de tantas coisas que não voltam mais. Nossos eramos a dupla dinâmica ❤��
    Parabéns mesmo! Seus textos são incríveis ����

    ResponderExcluir
  3. Lindou ou perfeito? Eu escolho os dois. Parabéns!
    Tenho certeza que muitas pessoas se identificaram, assim como eu.
    Beijos!

    ResponderExcluir

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.