Nova Perspectiva

26 de junho de 2015

Pelo direito de sofrer escondido

Via reprodução
Eu já olhei torto pra muitas dessas meninas que desfilam de salto quinze com o coração despedaçado, já participei de várias conversas no banheiro da balada no qual elas eram o assunto central. Falávamos baixinho sobre como aquela encenação que faziam no meio da pista de dança era patética, ninguém acreditava no batom vermelho que elas ostentavam nos lábios porque tava na cara que era só pisar na rua que os olhos se enchiam e a maquiagem se mistura com as lágrimas presas durante a noite toda. Ríamos daquele espetáculo mal encenado que não convencia ninguém e as expunha da maneira mais cafona possível. Presunçosamente, desdenhávamos do sofrimento expresso na testa enrugada de tanto chorar que elas tentavam disfarçar com pó compacto que só não compactava a verdade.

Eu já olhei com pena enquanto elas falavam alto na tentativa torta de alguém perceber que tinha algo errado, que, na verdade, tudo estava errado, principalmente ali do lado dentro onde o peito sangrava uma ferida doída e difícil de cicatrizar, elas estavam perdidas nos próprios sentimentos e não sabiam o que fazer para se consertar. Ficava observando de canto o vai e vem das bebidas tentando tapar o buraco que ocupava o lugar em que antes era só amor, e as peguei algumas vezes olhando o celular na espera de uma mensagem que nunca chegaria. Aquele eco mudo do visor em preto devia arder que nem fogo, mas elas forçavam o sorriso e desciam até o chão chamando atenção de todo mundo, menos de quem queriam chamar.

Julguei muitas dessas que se enfiam num vestidinho curto e postam foto com legenda de superação só para o outro ver. “Quem disse que eu tava na pior?” Elas estão e todo mundo sabe, mas fazem questão de tentar esfregar na cara de sei lá quem o contrário, na esperança de que isso os queime um pouquinho também, mesmo sabendo que possivelmente ele não vai nem ver, e se ver, não vai se importar. Ridicularizei algumas delas sem me dar conta de que eu não tinha esse direito, dei uma de dona da razão querendo ensinar como é que se sofre, ditei que luto a gente enfrenta na cama com toneladas de sorvete e filmes de drama, e aceita, porque não precisamos fingir que está tudo bem, se não tá. Tentei provar o quão aquilo era ridículo, que elas estavam chamando atenção do jeito errado e que aquilo não resultaria em nada além de uma ressaca filha da puta no dia seguinte. Eu, na minha arrogância, achei que podia me julgar melhor que todas elas, mais madura, mais segura, mais mulher. Até o dia em que me tornei uma delas.

Fui assunto na boca da mulherada e pivô dos olhares piedosos no meio das festas. Dei showzinho no final da noite e despenquei aos prantos no banheiro da balada, pedi conforto num copo de vodca com energético e dancei até o dia nascer com o coração desmazelado no meio da pista. Postei fotos no espelho das festas com legenda de superação e fiz ligações às três da manhã com a voz embriagada pedindo por mais uma chance, mesmo sabendo que ele é quem não merecia. Vesti sorrisos mais falsos que nota de seis e fiz de tudo pra provar pro mundo que tava tudo bem, mesmo sabendo que ninguém acreditava – nem eu. Tentei tapar minhas dores com maquiagem importada e salto agulha, mesmo sabendo que o buraco só ia fechar quando eu tratasse de encarar toda aquela bagunça perdida aqui dentro. Recusei os colos caridosos das amigas mais chegadas e compareci em todos os eventos que me marcaram no facebook, de segunda a segunda eu me enchi de compromissos pra não ter tempo de me dar conta da merda que eu tava fazendo. A gente não se atira na noite achando que vai se curar com aqueles copos de álcool, ou vai achar o amor verdadeiro no colo de um daqueles homens com papo fraco e língua rápida, a gente se joga porque quando o tombo é grande, as consequências são cruéis, e nem sempre estávamos preparados pra lidar com elas. Todo mundo tem seu tempo pra aceitar o luto do final de uma história, e pra vive-lo. Da minha dor, quem sabe sou eu. Da sua, quem cuida é você. Então não me tira o direito de sofrer em silêncio, montada no pretinho nada básico e esperando a minha tequila chegar.

3 comentários:

  1. É, Gabriela, às vezes a gente precisa sentir na pele uma certa situação para saber, de fato, como as coisas funcionam. Mesmo que de forma dolorida, esse tipo de experiência sempre traz um amadurecimento muito grande. Beijos!

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    1. Com certeza! Só quem sofre sabe o quanto a gente precisa crescer na marra.

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  2. Nossa li esse texto, lembrando dos momentos, mas percebi que não é tentando chamar atenção que vc se torna a atenção, quando paramos de nos importar com o que pensam, o que falam e simplesmente vivemos,acabamos nessa de festa, bebidas, que o importante é o nosso bem estar.Hoje olho pra trás e vejo dei importância demais pra quem não merecia, hoje vivo, estudo, trabalho, vivo a vida que quero, mas não minto la no fundo ainda dói mas ninguém precisa saber!

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.